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17/02/2020  

Hannah Arendt tem muito a ensinar sobre felicidade pública

Reinaldo C. Zanardi

Wolfgang Heuer: "Ao mesmo tempo que existe a pluralidade, as pessoas são indivíduos que não podem viver sozinhas"

Ela nasceu em 14 de outubro de 1906, na Alemanha, em uma família de origem judaica. Aos 18 anos, ingressou na Universidade de Berlim para estudar latim, grego e teologia. Casou-se duas vezes. Conseguiu cidadania nos Estados Unidos. Publicou alguns livros e entre os mais famosos estão "As Origens do Totalitarismo", de 1951, e "A Condição Humana", de 1958. Ela morreu aos 69 anos de idade, em 1975.

A filósofa e escritora Hannah Arendt incomodou muita gente, em vida, com seu pensamento inquietante e questionamentos provocadores. Ela continua a instar reflexões - pertinentes e necessárias - após quatro décadas da sua morte. Com o tema "A felicidade pública", a UEL realizou o X Ciclo Hannah Arendt, de 12 a 14 de novembro, evento internacional promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia (Centro de Letras e Ciências Humanas), com apoio da Especialização em Filosofia Política e Jurídica (Centro de Estudos Sociais Aplicados).

"A ideia de felicidade pública diz respeito à liberdade própria do espaço público; liberdade fundamental para a constituição de uma verdadeira república e consolidadora de uma sociedade plural que valoriza a plena participação cidadã", justifica a organização do evento, a partir da temática selecionada para nortear as reflexões e os debates, que reuniram pesquisadores, estudantes e professores na UEL.

A conferência de abertura do evento "Hannah Arendt - da pluralidade ao cosmopolitismo" foi realizada pelo professor Wolfgang Heuer, da Universidade de Berlim. Heuer foi professor visitante das universidades Federal do Paraná (2003) e Estadual de São Paulo (2005). Ele lembra que Hannah Arendt desenvolveu pelo menos 50 conceitos para pensar a realidade. Ele parte do conceito de pluralidade para refletir sobre a contribuição da escritora e filósofa, uma das pensadoras de maior destaque do século XX.

Para o professor alemão, a pluralidade aborda um conceito qualitativo e não quantitativo. "Vivemos em uma sociedade plural. Há diferenças entre as pessoas, a pluralidade de uma massa. Arendt racionaliza sobre tudo isso", explica o professor. Ao mesmo tempo que existe a pluralidade, as pessoas são indivíduos que não podem viver sozinhas. Nesse ponto, Heuer apresenta algo que parece contraditório. "Nós somos únicos, mas ao mesmo tempo separados dos outros".

A contradição desses elementos se dissipa a partir do confronto de outros dois aspectos da condição humana, apontados por Hannah Arendt: a igualdade e a distinção. "Somos iguais como seres humanos. Por isso, podemos nos entender no outro. E somos distintos pelas diferenças, pelas nossas experiências e referências", comenta.

Essa pluralidade pode levar a muitos perigos. No contexto da globalização, um desses elementos é o medo. Ele comenta que na Europa, em especial na Alemanha, fala-se em restabelecer um muro contra os refugiados. "Isso é a separação contra os de fora", ressalta o professor. A situação é mesmo preocupante. Conforme relatório da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), de junho deste ano, o número de refugiados passou de 70 milhões de pessoas em todo o mundo, em 2018.

São pessoas que fogem de conflitos, guerras e perseguições. Conforme dados da ACNUR, cerca da metade da população de refugiados de todo o mundo é formada por menores de 18 anos de idade, ou seja, são crianças e adolescentes. O componente religioso, conforme o professor Wolfgang Heuer, é uma das características que fomenta o medo: "[Por exemplo] o encontro com o mundo árabe, o islã associado ao terrorismo, provoca mais medo a muitas pessoas".

Para contornar essa situação, Heuer invoca outro conceito que foi objeto de reflexão por Hannah Arendt: o Estado de Direito, a partir da proposição do modelo de separação dos poderes, feita por Montesquieu. "É a dominação das leis. Esse marco institucional é um dos pilares mais desenvolvidos da História", aponta o professor. "Para Arendt é muito importante o Estado de Direito porque a separação dos poderes funciona como uma medida contra a soberania", completa.

Aqui, soberania é entendida como o poder exercido a partir de governos ou governantes totalitários. "A divisão de poderes dá mais poder para a comunidade". Isso significa afirmar que a separação dos poderes está ligada à participação cidadã. Nesse raciocínio, outro conceito deve ser evocado: a liberdade, que passa pela relação entre as pessoas. "Ninguém tem poder. Somente com o consenso do outro, alguém tem poder", comenta Wolfgang Heuer. "Atualmente, há declínio da realidade da liberdade. Isso já foi apontado por Arendt".

Felicidade pública

O professor de Ética e Filosofia Adriano Correia (foto), da Universidade Federal de Goiás (UFG), que proferiu a conferência "A alegria da ação em Hanna Arendt" durante o X Ciclo, trata do conceito de felicidade pública ligado à participação política, que envolve um conjunto de experiências que acrescentam muito valor ao ser humano. "Isso tem a ver com experiências que você nunca vai ter na vida privada", expõe.

Essa participação se locupleta em uma arena democrática, mas que se deteriora quando adversários enxergam o outro como inimigo. Tradicionalmente, em uma democracia, os agentes são adversários que dialogam entre si. "A felicidade pública depende de adversários. Precisamos deles para que haja pluralismo e não de inimigos a serem eliminados", explica o professor.

Em tempos de obscurantismo, a América Latina e outros locais do planeta, por exemplo, são laboratório para o extermínio - inicialmente - de ideias, e depois de pessoas.  "[na polarização] as pessoas se ofendem, se xingam, mas não divergem nem debatem", lamenta o professor. Ele lembra que a pluralidade é a condição da política. Pluralidade e política retroalimentam-se e sem isso, tiranos tomam a cena, eliminando a participação.

O professor lembra que Hannah Arendt começou a ser muito lida, após a derrubada do muro de Berlim, em 1989, mas foi com a eleição do presidente dos EUA, Donald Trump, que o interesse pelo pensamento da escritora aumentou significativamente. Ele afirma que a atualidade da sua obra está relacionada ao entusiasmo e à dignidade de uma política participativa, que deve pensar o adversário como interlocutor. "Mesmo quando eu divirjo. Alguém que está no outro campo político é alguém com quem eu dialogo, disputo, mas não alguém que quero exterminar", explica Adriano.

Adriano Correia: "A felicidade pública depende de adversários. Precisamos deles para que haja pluralismo e não de inimigos a serem eliminados".

A considerar o discurso de ódio que tomou conta das relações sociais no Brasil e no mundo, fazendo vozes extremistas incitarem até a morte do outro, faz-se necessário resgatar a dignidade perdida na participação política. Muitos setores têm responsabilidade nesse estado deteriorado, mas quem está disposto a refletir e a tentar reverter esse ambiente? O desafio é urgente!

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.405. Confira a edição completa:




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