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23/09/2019  

Tese mostra contribuição de Silvestre Peciar na formação do artista

José de Arimathéia

Fugido da ditadura uruguaia, Silvestre Peciar foi professor no RS por 25 anos e formou várias gerações de artistas, defendendo a liberdade política e criativa  

Em 5 de março de 2017, em Montevidéu, morria Silvestre Peciar, um artista e educador que militou não apenas no campo da Arte-Educação, mas também política. Nascido no Uruguai em 1935, Peciar fugiu de seu país durante a ditadura (1973-1985) e se estabeleceu em Santa Maria (RS) como professor do curso de Artes Visuais, depois naturalizando-se brasileiro. Lá, formou várias gerações de artistas, militando tanto em favor da liberdade política quanto estética.

O professor Juliano Reis Siqueira (Departamento de Arte Visual) é formado em Santa Maria e teve aulas com Peciar, iniciando uma longa trajetória associada ao arte-educador. Em julho passado, Siqueira defendeu sua tese de Doutorado no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), justamente abordando "Peciar e a formação do artista". Graças ao convívio com o professor uruguaio, e até uma troca de correspondência por cartas, Siqueira teve acesso a grande número de documentos deixados por ele, de esboços e estudos a textos inéditos, o que propiciou ampla e profunda pesquisa sobre o legado de Peciar. Na verdade, pesquisa de longa trajetória, já que no Mestrado estudou o currículo proposto por Peciar para a UFSM.

Siqueira conta que Peciar era militante ativo no Uruguai desde sua juventude, no movimento estudantil. O Uruguai foi o primeiro país das Américas a ter uma educação primária universal, gratuita e obrigatória, desde o último quarto do século XIX. Em 1958, a Lei da Universidade Orgânica garantiu que os gestores seriam escolhidos pela comunidade universitária. Nos anos 60 o movimento estudantil se fortaleceu mas a instalação da ditadura, em 1973, começou a reverter o cenário.

Foi neste contexto que Peciar saiu do país, em 1975, refugiando-se em Santa Maria, onde passou a ministrar aulas e atuar ativamente na formação de artistas. Foi coordenador do curso e promoveu a mudança de currículo, tornando-o mais flexível para atender ao interesse dos alunos, num modelo semelhante ao escolanovismo.

Segundo Siqueira, para Peciar a arte não pode ser elitizada, mas ser comunitária e se integrar à arquitetura, não apenas colorindo um espaço, por exemplo, mas acrescentando e valorizando-o. Siqueira seguiu os passos do mestre: esteve em Montevidéu para estudar e produziu arte para a rua.

Segundo Juliano Reis Siqueira, Peciar era militante ativo no Uruguai desde sua juventude, no movimento estudantil

Se por um lado o uruguaio defendia a liberdade estética e criativa, acima de cânones e currículos cristalizados, ao mesmo tempo ele falava da liberdade de expressão política. "A formação do arte-educador, para Peciar, envolvia uma formação como artista, porém o arte-educador tem que desenvolver também uma formação pedagógica, além dessa formação como artista", comenta o professor Juliano, que acrescenta: "Peciar não falava em um domínio técnico, mas do estudante chegar à técnica através do experimentar; deixar que o impulso criador produza seus próprios procedimentos, para que o artista possa modelar, desenhar e pintar como uma criança, sem se preocupar com nenhuma técnica".

Peciar idealizou um modelo pedagógico no qual arte, educação e política formam uma triângulo, ou seja, ética e estética estão ligadas. Apesar de se posicionar dentro dos valores ligados à arte moderna, ele buscou estudar e compreender a arte contemporânea, porém sempre condenou a mercantilização da arte e trabalhou para sua democratização e socialização."Seu ideal era da integração da arte à vida diária, sonhava com uma arte pública", completa Juliano.

PEDAGOGIA DA ARTE

Peciar desenvolveu uma Pedagogia da Arte que consiste numa orientação problematizadora. Orientar, no caso, é ajudar o estudante a elaborar mais claramente os elementos formais, sem interferir na singularidade e na espontaneidade; ajudar cada um a desenvolver a própria "caligrafia", entendendo a Arte como uma linguagem.

O uruguaio não apenas influenciou gerações de artistas, mas também foi tocado pelas obras das várias Bienais de São Paulo em que esteve. De acordo com Siqueira, Peciar gostava muito de Wassily Kandinsky (russo, 1866-1944), de quem tirou o conceito de "necessidade interior" do artista. Para o mestre, a arte é um processo espiritual que trabalha com a matéria. Outras influências vieram de Miguel Ángel Pareja (uruguaio, 1908-1984), em cores e pedagogia; Jean-Ovide Decroly (belga, 1871-1932), num método que defende a prática antes da teoria; Fernand Leger (francês, 1881-1955), em pintura na Arquitetura; entre outros.

Já no Mestrado, Siqueira indagou: Arte se ensina? Sim e não. Para Peciar, o arte-educador deve proporcionar experiências educativas propiciando todas as condições necessárias: espaço, material, técnica, estímulo à criatividade, etc. De fato, quanto mais estímulo, maiores as possibilidades, destaca o professor da UEL. Como cada artista tem seu próprio processo criativo, o estudo da Arte passa a ser também um processo de autoconhecimento.      

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.399. Confira a edição completa:




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