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22/07/2019  

Especialistas debatem gestão de resíduos sólidos no Brasil

José de Arimathéia

Professora Lílian Aligleri: "é um tema complexo que requer uma visão holística e uma estratégia de colaboração mútua entre as áreas"

A produção de resíduos sólidos pela população é um problema complexo, para o qual concorrem inúmeros fatores, e portanto deve ser abordado por inúmeras áreas do conhecimento e, consequentemente, racionalidade - isto é gestão de resíduos. Contudo, a própria expressão indica que apenas tratar dos resíduos é combater sintomas, pois é necessário - e urgente - pensar na sua produção.

Este é o pensamento comum de especialistas que atuam na área, como a engenheira civil Heliana Kátia Tavares Campos e a professora Sylmara Gonçalves-Dias (USP). Elas participaram, no início de junho, do 1º Seminário Interdisciplinar de Pesquisas em Resíduos (SIPR), organizado pela Rede de Pesquisas em Resíduos da UEL, formada por professores de cinco Centros de Estudo da instituição.

Kátia avalia que o problema é tanto ambiental quanto social, e que a complexidade faz que as soluções sejam ecológicas, políticas e sociais. Ela informa que o Brasil tem perto de 3.000 lixões, onde tudo é descartado sem critério, mas proibidos por lei desde 1981. Apenas 58% dos municípios brasileiros possuem aterros sanitários, mas mais de 60% dos municípios, especialmente os menores, têm lixões.

No Brasil, municípios com mais de 100 mil habitantes devem ter aterro sanitário. Porto Alegre, por exemplo, recebe resíduos de outros 240 municípios, quase a metade do estado. Só a capital produz mil toneladas por dia, mas o aterro fica a quase 120 km. A tendência, para Kátia, é ter aterros "regionais", que devem reduzir custos.

Além disso, há problemas na coleta e varrição. Todos estes problemas precisam ser enfrentados com racionalidade, segundo ela. "Trabalho mal feito custa caro", resume. É aí que entra o conhecimento produzido nas universidades, que ainda devem se adequar para prestar este serviço. "Poucas preveem no currículo esta formação, e os profissionais formados precisam saber desenvolver um plano de coleta ou um aterro. Planejamento e tecnologia devem se unir", afirma Kátia.

Para a engenheira, o problema é antigo e remonta os anos 60, quando as companhias estaduais passaram a ser responsáveis pelo tratamento. Surgiu uma demanda mas não havia profissionais para supri-la, então aprendiam na prática. As políticas públicas, baseadas em experiências europeias, são avançadas. Mas para serem eficientes no Brasil, dependem dos acordos setoriais, como no caso das indústrias e da gestão de pilhas e baterias.

O problema é que a falta de racionalidade, que gera custos altos e evitáveis, cai na conta da população. Por sua vez, entende Kátia, a sociedade também é pouco sensível: produz muito lixo e não faz a separação adequada. Outros atores importantes são os catadores de recicláveis. "Eles são os melhores especialistas no reconhecimento do material descartado. Mas precisam muito de apoio na gestão dos resíduos, especialmente do Estado", diz.

OLHAR INTERDISCIPLINAR

A professora Sylmara Gonçalves-Dias (USP) também esteve no Seminário, para desenvolver o tema "Um olhar interdisciplinar para os resíduos sólidos urbanos". Doutora em Administração de Empresas (FGV) e em Ciência Ambiental (USP), ela é docente em dois Programas de Pós-Graduação ligados ao meio ambiente e pesquisadora das áreas de Sustentabilidade, Gestão Socioambiental, Políticas Públicas Ambientais e Estudos Organizacionais.

Sylmara explica que este olhar é multidimensional, porque a gestão de resíduos, por sua complexidade, requer um olhar de vários ângulos. Envolve saúde, política, governança, tecnologia, cadeia de produção, entre outros. Mas o que chama a atenção mesmo, segundo ela, é que "resíduo é sintoma, é o fim do tubo". E já se sabe há muito tempo que não adianta só tratar os sintomas.

Ela expõe: "Múltiplas soluções devem ser adotadas. Isso exige um esforço conjunto de profissionais de várias áreas, como Direito, Ciência Política, Educação, sem esquecer os interesses econômicos, a governança urbana, a pesquisa e o desenvolvimento de ciência e tecnologia". Assim, não basta pensar em soluções para o "fim do tubo", é preciso atuar em todo o processo de produção a fim de construir uma política de resíduos. "Se não olharmos todo o processo, vamos apenas enxugar gelo", sentencia.

A professora aponta que tecnologia não é problema. "O que precisa avançar é o diálogo entre os atores envolvidos, como o poder público e as empresas, de todo tipo, as que produzem resíduos, as que coletam, reciclam, todas", afirma. Além disso, Sylmara percebe uma falta de conexão da população em geral, que descarta os resíduos, muitas vezes inadequadamente, e não se importa com o que acontece depois. Neste ponto, ela acredita que há muito o que avançar. E é aí que as universidades podem assumir um protagonismo, produzir e disseminar conhecimento para promover o avanço necessário, em todas as áreas, numa relação triangular com o poder público e a sociedade. "As universidades precisam produzir conhecimento que traga impacto social para este problema que não é do Paraná ou do Brasil, mas do mundo. Os mares são os mais prejudicados pela produção de resíduos, e as pessoas se esquecem que parte dele pode voltar, como por exemplo pela produção de alimentos", explica.                       
      
Um dos objetivos do grupo, e do Núcleo a ser criado, é fortalecer as cooperativas de recicláveis, inclusive financeiramente - hoje são sete, com quase 400 trabalhadores
      

Outro desafio, segundo a pesquisadora, é ampliar o foco e não pensar apenas no sintoma, mas na produção. "A reciclagem não dá conta", esclarece. Daí a necessidade de produzir menos resíduos, com mais racionalidade, o que acabaria gerando até economia. "Mas é preciso caminhar rápido. O próximo passo é adotar esta política de segunda geração, preocupada com a prevenção", finaliza.

LONDRINA

A professora Lílian Aligleri (Departamento de Administração), uma das organizadoras do Seminário, coordena o projeto de pesquisa "Gestão de Resíduos Sólidos Recicláveis na cidade de Londrina: um estudo dos rejeitos e sua reinserção em novos ciclos de transformação industrial". O Núcleo de Gestão de Resíduos reúne 12 pesquisadores de sete áreas diferentes: Administração, Design, Física, Microbiologia, Direito, Engenharia Civil e Biologia.

Segundo Lílian, é um grupo de docentes muito comprometido com um grande desafio, um tema complexo que requer visão holística e estratégia de colaboração mútua entre as áreas. O grupo, que nasceu da descoberta de pontos em comum entre os pesquisadores, deve se transformar, ainda este ano, num Núcleo, a fim de que possa crescer e avançar nos estudos e outras ações. "A ideia é juntar todo mundo que trabalha com resíduos e articular os projetos, numa abordagem transdisciplinar", destaca a coordenadora do grupo. Por isso, ele está aberto a novos membros.

O grupo iniciou suas atividades em março do ano passado e como uma rede este ano e, atualmente, o regulamento do Núcleo está sendo elaborado. Em 2017, Lílian desenvolvia seu próprio projeto sobre coleta seletiva quando surgiu o interesse da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), responsável pela coleta de lixo na cidade, em reestruturar e melhorar o sistema. De acordo com Lílian, existem problemas sérios, que vão desde a casa do consumidor, que não separa o lixo, até a logística, como o transporte. Lílian lembra que a atuação do Ministério Público é fundamental, assim como a fiscalização do Poder Público e o cumprimento efetivo do Acordo Setorial, firmado entre Ministério Público e indústrias, que tem força de lei, mas precisa ser melhor fiscalizado.

AÇÕES

Além das pesquisas, o grupo tem desenvolvido diversas ações, como cursos de extensão para a comunidade externa, a inclusão de conteúdos nas ementas de disciplinas de cursos de graduação e cursos para a comunidade interna. Também mapeou trabalhos de pós-graduação ligados ao tema e realizou diagnóstico dos problemas em Londrina. Visitou o único aterro de Londrina e mantém contato com os cooperados. No aterro, mais problemas: originalmente para receber rejeitos, lá são encontrados também material orgânico. Na avaliação da professora Lílian, é mínimo o volume de compostagem de lixo orgânico em Londrina. De fato, o volume de reciclados também é muito pequeno, mas bom se comparado a outras cidades de mesmo porte.

Outro objetivo do grupo, e do Núcleo a ser criado, é fortalecer as cooperativas de recicláveis - hoje são sete, com quase 400 trabalhadores - inclusive financeiramente. As cooperativas recebem R$ 1,47 por domicílio coletado, o que atualmente garante mais renda do que a venda. Igualmente, Lílian enfatiza a necessidade de conscientizar as empresas de suas responsabilidades legais em relação à gestão de resíduos.

Um dos pontos mais positivos do Núcleo, conforme a professora, será a cooperação mútua entre as áreas. Ela exemplifica: "Um projeto de Física pode evoluir até se tornar uma oportunidade comercial. A Administração pode entrar e prestar assistência".

Heliana Kátia Tavares Campos é Especialista em Saneamento Básico e Mestre em Desenvolvimento Sustentável. Possui experiência em saneamento, mobilização social e gestão dos resíduos sólidos urbanos. Foi oficial de Projetos da UNICEF, idealizadora do Fórum Nacional Lixo e cidadania, e consultora do Ministério do Meio Ambiente e da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento. Consultora do Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID e diretora presidente do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal quando encerrou as atividades do segundo maior lixão do mundo e inaugurou o primeiro aterro sanitário da capital federal.

Sylmara Gonçalves Dias é professora dos Programas de Pós-Graduação em Ciência Ambiental e em Sustentabilidade, e do curso de Bacharelado em Gestão Ambiental da USP. Pesquisadora das áreas de Sustentabilidade, Gestão Socioambiental, Políticas Públicas Ambientais e Estudos Organizacionais. Diretora da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. Possui Doutorado em Administração de Empresas pela FGV; Doutorado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo; Mestrado em Administração pela USP; Graduação em Administração pela PUC-MG e graduação em Pedagogia pelo Instituto de Educação (MG).

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.396. Confira a edição completa:




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