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26/06/2019  

Pesquisa conclui maior vulnerabilidade das aves do Paraná

Rodrigo Dourado*

"Todas as espécies têm funções ecológicas, elas são importantes na polinização das plantas", explica o professor Luiz dos Anjos

Luiz dos Anjos é professor do Departamento de Biologia Animal e Vegetal e está à frente do Laboratório de Ornitologia e Bioacústica no Centro de Ciências Biológicas (CCB). Doutor em Zootecnia, Anjos é o único ornitólogo da UEL. No laboratório, orienta pesquisas e trabalhos de pós-graduação. Muitos de seus orientandos foram convidados para programas de Doutorado em outros países e desenvolvem pesquisas a partir dos trabalhos realizados na UEL. Para estudos mais completos, o laboratório mantém uma rede de colaboração com outros laboratórios, desde os mais próximos como de São Paulo, quanto os mais distantes, como do Pará e Bahia.

Recentemente uma de suas pesquisas teve destaque na revista Nature. Em parceria com pesquisadores ingleses e de diferentes regiões do Brasil, o trabalho contemplou 378 espécies, em 211 locais, numa extensão de 2.000 km, e analisou a sensibilidade de espécies de aves como resultado do desmatamento. Os outros pesquisadores envolvidos são da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana/Bahia), Imperial College London, SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) e IPE/Nazaré Paulista (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

A pesquisa concluiu a existência de maior vulnerabilidade de espécies que vivem mais distantes do centro de distribuição, onde as condições são mais favoráveis à sobrevida. Espécies que vivem em zonas de distribuição necessitam de apenas 20% da cobertura de florestal inicial, em média, frente a 50% de cobertura necessária para aves que vivem nas bordas das zonas de distribuição, e as causas são diversas. Luiz dos Anjos explica: "Para cada espécie, a alimentação muda. Na borda de distribuição geográfica dessa espécie há menos insetos que são presas. Assim, as aves têm condições físicas menos favoráveis e têm que circular mais em busca de alimentos, então se expõem mais aos predadores. Em decorrência disso ainda, põem menos ovos. A conclusão: na borda de distribuição há menor densidade das espécies, o que reduz a possibilidade de colonização dos fragmentos restantes de floresta em caso de desmatamento".

Como a pesquisa ocorreu em todo o Brasil, é possível comparar a preservação das diferentes espécies entre as regiões. Mesmo sendo um dos estados com maior número de reservas, as aves do Paraná são algumas das mais prejudicadas. Isso ocorre porque o estado está na borda de distribuição de muitas espécies. O Nordeste apresentou cenário contrário: é uma região mais desmatada, mas coincidentemente as áreas preservadas fazem parte do centro de distribuição de grande parte das espécies.                       
      
Em parceria com pesquisadores ingleses e de diferentes regiões do Brasil, o trabalho contemplou 378 espécies, em 211 locais, numa extensão de 2.000 km
      

A idéia de fazer essa análise surgiu de alguns trabalhos já feitos pela Mata Atlântica, mas de forma isolada. "A partir de encontros e análises de outros estudos, começamos a perceber que algumas espécies, sensíveis aqui não eram sensíveis na Bahia, por exemplo. Mas por quê? Começamos então a investigar. Os ingleses tiveram a ideia de pegar todas as espécies que pudéssemos e medir a sensibilidade delas, para ver se havia um padrão. Cada professor avaliou sua região, a minha pesquisa começou nos anos 90", afirma o professor da UEL.

O processo de campo em Ornitologia é tradicional, com base na visão e na audição. Os pesquisadores usam binóculos, gravadores e microfones, e se baseiam em guias de campo que descrevem as características de cada espécie. Em muitos casos, as espécies se parecem muito com as outras, então é necessário experiência e atenção. "O aluno aprende a identificar as cores. Ele pode fotografar e gravar o som, então a partir dessas duas informações ele faz a identificação. Mas em algumas espécies a identificação é muito difícil em família com características muito parecidas. Nesses casos é preciso ser um pesquisador experiente", conta o professor.

Os resultados apontam a necessidade de maior preservação das espécies, para que suas funções na Natureza não sejam ameaçadas. Anjos exemplifica: "Todas as espécies têm funções ecológicas. As aves são importantes na polinização das plantas. Muitas vezes as aves ingerem sementes e propagam espécies de frutos por diversas áreas. Além disso, alimentam se de insetos e controlam a população. Muitas pragas de agricultura poderiam ser controladas com a preservação das aves. Até mesmo para os humanos, a presença das aves nos espaços gera relaxamento devido ao som que produzem".

No Paraná, o professor cita o parque da Mata do Godoy como área de preservação. O parque abriga mais de 320 espécies, quase metade de todas as espécies do estado. Lá são encontrados o Inhambu, o Macuco e a Jandaia, em extinção na região, mas em abundância no Mata do Godoy. Apesar do desaparecimento de espécies na zona rural da região do norte do Paraná, Anjos comenta um fenômeno de Londrina: "Com o Lago Igapó, muitas aves entraram na zona urbana".

Atualmente os planos do professor para o laboratório são de pesquisa das florestas de araucárias. As árvores da espécie são abundantes na região, mas sua mata não é preservada. Em regiões mais ao sul, há uma população muito maior de araucárias e áreas de florestas da espécie.

*Estagiário de Jornalismo na COM

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.396. Confira a edição completa:




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