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07/06/2019  

Professor argentino vem a Londrina falar da Medicina Translacional

José de Arimathéia

"Os governos veem os pesquisadores como 'gastadores'. Os governos têm que mudar sua perspectiva e investir em políticas públicas que valorizem a pesquisa", defende o professor Marcelo Villar, da Universidade Austral

O professor Marcelo José Villar, da Universidade Austral (Argentina), esteve em Londrina para abrir o III Simpósio Internacional de Patologia Experimental, realizado de 22 a 24 de maio. Ele proferiu a palestra de abertura, intitulada "Medicina Translacional - fatos e desafios".

Com 45 anos de carreira docente e pesquisador da área de Neurociências e mecanismos da dor, Villar já foi reitor da Faculdade de Ciências Biomédicas da Universidade Austral, onde atuou também no Hospital Universitário num dos campi. Ele é o tipo de professor que defende que a Universidade não é apenas um lugar de formação profissional para atender o mercado ou a sociedade. Mais que isso, é uma comunidade rica de valores vivos, que forma e transmite valores.

É alinhado a este pensamento que ele aborda a Medicina Translacional. A Ciência Translacional é uma proposta de aproximar, o mais rapidamente possível, o conhecimento obtido nas pesquisas básicas de sua aplicação, ou seja, no caso da Medicina, na prevenção e tratamento de doenças, através da produção de vacinas, medicamentos e uso de técnicas e tecnologia inovadoras.

A Medicina Translacional se esforça em encurtar esta distância valorizando as pesquisas, promovendo a colaboração entre as áreas (Medicina, Química, Física, Engenharia, etc.) e instituições, e democratizando o conhecimento. Neste contexto em que a transferência de conhecimento é necessária e uma ferramenta de disseminação, a tradução é essencial. "Traduzir é beneficiar, até economicamente", anota o pesquisador. É "crucial", nas palavras de Villar, que as publicações sejam disseminadas. "O objetivo da pesquisa é combater doenças. A pesquisa básica é importante mas pode demorar décadas para sua efetiva aplicação prática", explica. Villar destaca Israel nesta iniciativa. Neste cenário, a imprensa também pode ajudar a reduzir a distância entre a Ciência e a sociedade.

Villar expõe outro problema: muitas vezes, a indústria (farmacêutica, por exemplo), pensando nos lucros, não se interessa por uma pesquisa básica. Para o professor, é preciso mudar esta perspectiva, para que as indústrias entendam que as pesquisas são sempre positivas para a sociedade, inclusive economicamente falando.

O que a Medicina Translacional propõe, segundo o professor argentino, é a unificação de ideias. "Dez pesquisadores brasileiros unidos fariam diferença", exemplifica. "Mas não temos isso na América do Sul. Há um certo egoísmo", lamenta. Para o professor, existe uma preocupação de ser o primeiro, sair na frente. Contudo, do ponto de vista da Medicina Translacional, não é preciso ser original ou genial - o ponto forte é a união de saberes. Muito mais importante é o intercâmbio, a troca de experiências, a fim de conhecer outras realidades e instituições. Ele mesmo fez seu Pós-Doutorado em Estocolmo, e esteve em Israel, onde realizou uma série de encontros.

POLÍTICAS PÚBLICAS

E se a indústria muitas vezes não se interessa, o mesmo ocorre com os governos. "Os pesquisadores sofrem com os gestores, que os veem como gastadores. Os governos têm que mudar sua perspectiva e valorizar as pesquisas", defende Villar. A falta de sensibilidade dos governos com frequência passa pela incompreensão do modo de fazer ciência. Para o pesquisador argentino, tanto pesquisadores quanto administradores trabalham com paixão. A questão é conseguir articular e harmonizar as respectivas paixões. "É um grande desafio explicar e convencer", complementa.

Apesar disso, o professor se mostra otimista. Ele disse que nos últimos 10 anos houve avanços, ainda que em poucas áreas, como na pesquisa de alguns cânceres, na cirurgia cardíaca, e particularmente o HIV. "Este é um caso em que foi politicamente decidido investir", observa. De fato, no Brasil tais pesquisas avançaram relativamente rápido e fizeram do Brasil uma referência mundial.

A professora Alessandra Lourenço Cecchini Armani (Departamento de Ciências Patológicas da UEL), que acompanhou o professor durante o evento, endossa as palavras do convidado argentino e acrescenta: "É preciso encarar o assunto. Estamos dando os primeiros passos". Para ela, são produzidas pesquisas básicas excelentes, mas devem avançar para os usos aplicados e estender o benefício à sociedade. É como se os pesquisadores estivessem "confinados". Uma ideia é que os médicos colaborem com sua prática e unam forças com os pesquisadores. Villar vai além: isso pode começar já nas escolas, que podem formar um profissional que dialogue mais e se interesse mais pela pesquisa depois de formado.

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.395. Confira a edição completa:




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