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31/05/2019  

Uso do vocabulário politicamente correto em matérias da Folha

Agência UEL

José de Arimathéia

Professor Reinaldo César Zanardi (Departamento de Comunicação)

O professor Reinaldo César Zanardi (Departamento de Comunicação) defendeu, no dia 28 de março, no Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da UEL (PPGEL), sua tese de Doutorado, intitulada "Linguagem politicamente correta: um estudo sobre variantes linguísticas na produção jornalística da Folha de S. Paulo". Na pesquisa, ele reflete sobre o uso do vocabulário politicamente correto em matérias da Folha de S. Paulo (na Internet) que abordam pessoas com deficiência, negros e homossexuais, publicadas de 1º de janeiro de 2000 a 1º de março de 2018, descreve e analisa as variantes de prestígio e discriminatórias.

Em princípio, Reinaldo encontrou 1970 reportagens, das quais mais de 60% (1197) eram sobre negros. Apenas 8% (158) eram sobre pessoas com deficiência. Por questões meto-dológicas, foram excluídos 554 textos daqueles 1197, porque não se referiam a negros do ponto de vista étnico. Assim, ficaram 1416 reportagens - 643 para a variante negro, 615 para homossexual e 158 para pessoas com deficiência.

Levando em conta a grande quantidade de dados, o professor classificou as reportagens de cada campo semântico em 9 categorias de análise: serviços e produtos; direitos e conquistas; manifestações; personagens e militância; dados e estatísticas; protestos; violência física; discriminação e preconceito; e outros. No que se refere aos deficientes, a maioria das matérias falavam de serviços e produtos, direitos e conquistas e manifestações. Sobre negros, a maioria abordava violência física, discriminação e preconceito e manifestações. Sobre homossexualidade, direitos e conquistas, violência física e discriminação e preconceito.

VARIANTES

Dentro de cada campo semântico, o pesquisador elencou as variantes que apareceram em grupo. Foram encontradas 917 ocorrências sobre deficiência, divididas em 23 grupos. "Excepcionais", uma variante praticamente extinta, foi registrada uma única vez. Várias outras também ocorreram apenas uma vez, como "deficientes mentais" e "quem tem deficiência física". Já "pessoa(s) com deficiência(s) foi encontrada 342 vezes. "Deficiente(s)" foi usado pela Folha 126 vezes.

No campo da negritude, a variante "negro(a)(s)" apareceu 2091 vezes, enquanto "pessoa da pele negra" apenas 1. Já variantes com o prefixo "afro" ocorrem 267 vezes, sob 10 formas diferentes, como "afro" (141 vezes), "afrodescendente(s)", "pessoa(s) afrodescendente(s)". Também foram encontradas variantes como "pessoa morena", "escuro", "mestiça" e até "sujeito de muita melanina". No campo da homossexualidade, "gay(s)" é o mais frequente: 1629 registros, entre outras variantes do grupo (como "homens gays", "ex-gay"). Na sequência, "homossexual(is)", com 1388 ocorrências, assim como "pessoas homossexuais", "homo(s)" e "pares homossexuais". Entre as formas que apareceram apenas uma vez, estavam "ex-lésbica", "arco-íris", "baitola" e "mona".

DISCRIMINAÇÃO OU PRESTÍGIO

Se as variantes são discriminatórias e ofensivas ou, ao contrário, são de prestígio, dependerá do uso. O que se sabe, de acordo com Reinaldo Zanardi, é que a linguagem politicamente correta (LPC) está consolidada. Segundo o pesquisador, ela nasceu nos Estados Unidos, dentro do movimento pelos direitos dos negros.

Para o professor, o prestígio ou estigma das variantes depende dos interlocutores e do contexto no qual estão inseridos. Um exemplo a partir da pesquisa: houve um registro de "viada", mas foi considerado positivo porque estava numa matéria em que uma homossexual manifestava e foi descrita assim: "Ela está toda viada!". Além disso, muitas variantes de prestígio surgem em contextos de linguagem técnica, como da área jurídica ou de saúde. "Homoafetivo" é um caso - apareceu e se mantém mais quando se trata de matérias que envolvem decisões de tribunais. "Afrodescendente" também acabou se consolidando mais quando se trata de cultura, culinária, arte e sistema de cotas.

Outra conclusão do estudo é que o eufemismo se revela como mecanismo de funcionamento da LPC, e não uma figura de linguagem. Assim, existem os exageros, muitas vezes inconscientes. "A prática da linguagem politicamente correta existe, mas não é linear nem homogênea", diz Reinaldo, que diferencia a linguagem do comportamento politicamente correto. "A LPC não resolve o problema do preconceito, mas o uso do não politicamente correto o reforça. Se as pessoas se habituarem a usar a LPC, pode ser que com o tempo elas tomem atitudes politicamente corretas.

O pesquisador lembra que o "politicamente" se refere às relações habituais que qualquer cidadão que vive em sociedade mantém. Por isso, é desejável como mecanismo de controle, se isso significa evitar as ofensas.

MANUAL DE REDAÇÃO

Além de analisar os textos publicados, Reinaldo estudou duas versões do Manual de Redação da Folha (1993 e 2018) e observou as mudanças propostas pelo próprio veículo. A variante "GLS", por exemplo, aparecia muito mais nos primeiros anos, mas foi sendo substituída por outras, como "LGBT(s)", que apareceu cerca de 200 vezes mais que a primeira. "Gay" não era permitido pelo Manual de 1993. Outro exemplo é o "portador de necessidades especiais", mais usado atualmente na Educação do que em outros contextos.

O Manual (versão 2018) também estabelece que toda vez que uma expressão for discriminatória (estigmatizada), ela deve ser creditada à fonte, de forma que o veículo transfere a responsabilidade pelo uso do termo ao entrevistado.

Zanardi observa que a linguagem do jornal e da sociedade exercem influência mútua, de forma não homogênea, de modo que o uso ou desuso pelo meio social pode decretar a extinção do vocábulo no periódico, assim como um termo surgido numa matéria pode ser adotado ou não pela sociedade.

BANCA

A tese de Reinaldo Zanardi foi orientada pela professora Fabiane Altino. A Banca de Avaliação foi composta pelos professores da UEL Esther Gomes (Letras), Marcelo Silveira (Letras), Manoel Dourado Bastos (Comunicação), e pela professora Greize Alves da Silva (Letras/Universidade Federal do Tocantins).

Depois de trabalhar na versão final do trabalho, Zanardi parte para a produção e publicação de artigos. "Tenho material para 20 anos de pesquisa", comenta.


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