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08/11/2018  

Um lugar para construir a identidade

Bia Botelho

Professora Carina Kaplan ministra aulas no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPEdu-UEL)

Professora argentina estuda a violência física e simbólica que jovens sofrem em ambiente escolar e as experiências emocionais resultantes

A professora Carina Kaplan, da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) e da Nacional de La Plata (UNLP), participou no início do mês passado do 17º Simpósio Internacional de Processos Civilizadores, em que diversos pesquisadores nacionais e internacionais estiveram reunidos para debater a temática "Processos figuracionais históricos, políticos, sociais e educativos", com base na Teoria dos Processos Civilizadores e na Sociologia Figuracional de Norbert Elias (1897-1990). A professora também ministrou aulas no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPEdu-UEL), em parceria com o professor Tony Honorato.

O foco da pesquisadora argentina são os processos educativos. Em palestra no evento, ela abordou o tema "A construção social das emoções: uma abordagem relacional", com ênfase nas experiências emocionais dos jovens e produção da violência na escola.

"Por trás de muitas violências na escola se esconde uma dor social, o mal estar sócio-psíquico que sentem os jovens em uma sociedade que não os reconhece e não os respeita", afirma a pesquisadora. Ela explica ainda que é por meio da violência que o jovem, por vezes, encontra uma maneira de reivindicar respeito e reconhecimento.

Carina Kaplan conta que são observadas duas formas de violência: a física e a simbólica. Na primeira, a violência ocorre em relação aos outros e também a si mesmo, com a autolesão corporal, inclusive levando ao suicídio. Já a simbólica está relacionada à discriminação, ao racismo, principalmente pela diferença da cor de pele - trata-se de uma lesão social e psíquica. A professora explica que, diferente do Brasil, onde o racismo se dá principalmente com os negros, na Argentina, devido à forma de colonização, o racismo se dá principalmente com os indígenas. Entretanto, ela afirma que ambas as sociedades têm vivido ondas conservadoras e denegadoras das diversidades, e isso preocupa a vivência plural, democrática e com menos violência física e simbólica.

A professora conta que nas pesquisas realizadas, alguns jovens entrevistados dizem sentir menos a dor física do que a dor social. "Como jovens, eles precisam construir o sentido da sua existência, porém na sociedade são inferiorizados", afirma.

Escola

Para a professora, "a escola é uma figuração muito poderosa para trabalhar temas como a discriminação e a violência, e para construir outra visão de mundo social". Por isso, afirma que nesse lugar não se deve naturalizar as formas de violência e de trato desigual e discriminatório. "Na escola tem que se construir certas máximas pedagógicas para que as crianças entendam que não é através dos golpes que se solucionam os conflitos. Sempre vai haver conflitos na escola, assim como na sociedade, porque as relações humanas são complexas, mas se pode conviver com os outros sem necessidade de se expressar de forma violenta", defende Carina.

Segundo a pesquisadora, há uma cultura de violência nas famílias e muitas vezes as crianças vão para escola com marcas de violência física no corpo, pois alguns pais consideram o castigo físico como educativo. Porém, como educadora, ela vê o corpo da criança como intocável e não pode ser violentado. "A escola é o lugar para ensinar outra forma de relação com o corpo dela mesmo e dos outros. O professor tem o dever de dar visibilidade a esses corpos e ajudar a mostrar formas de relação sem a violência", afirma.

Pós-graduação

Além da participação no evento, Carina lecionou no Programa de Pós-graduação em Educação, na disciplina "Processos Escolarizadores e dimensões sócio-emocionais na vida educativa", ministrada em parceria com o professor Tony Honorato (Departamento de Educação).

Na ocasião, os professores fizeram uma análise dos fenômenos educativos ao longo da História da escolarização no Brasil e na Argentina, considerando as mudanças psicogenéticas e sociogenéticas como fundantes para compreensão das relações entre os agentes da cultura escolar, e entre os agentes e a sociedade. Um dos fatos lembrados foi o castigo físico aos alunos, permitido antigamente nas escolas como forma educativa, não sendo considerada violência, por exemplo, em sociedades que no século XIX também não consideravam como violência o açoite físico do corpo do escravo. Porém, hoje esse tratamento é um ato violento, porque a sensibilidade da sociedade e dos indivíduos sobre o que é a violência mudou. "Então foi preciso mudar de uma pedagogia do castigo para uma pedagogia do cuidado, que dimensiona as questões das dores emocionais e sociais", afirma Carina.

Para a professora Carina Kaplan, "a escola é uma figuração muito poderosa para trabalhar temas como a discriminação e a violência, e para construir outra visão de mundo social"

Norbert Elias

O 17º Simpósio Internacional de Processos Civilizadores (SIPC) abordou as teorias e o conjunto da obra de Norbert Elias. De acordo com Carina Kaplan, as teorias do sociólogo tratam das trocas psicogenéticas e sociogenéticas da sociedade e da construção psíquica dos indivíduos, numa perspectiva processual e figuracional.

Ela explica que os processos civilizadores se dão nas relações humanas ao longo da História, como uma forma relacional e de poder. A escola moderna, por exemplo, nasce como uma função civilizatória e função de ensinar certos comportamentos que acabam variando com o passar dos anos. Nesse sentido, o professor exerce um papel fundante como potencializador do conhecimento acadêmico e social a ser ensinado às crianças na figuração escolar. Contudo, o processo de ensino-aprendizagem não é isento de tensões necessárias.

Simpósio

O 17º Simpósio Internacional Processos Civilizadores (SIPC) foi promovido interinstitucionalmente pela UEL, representada pelo Grupo de Pesquisa Processos Civilizadores, coordenado pelo professor Tony Honorato, e pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, e também pela Universidade Estadual de Maringá, representada pelo Laboratório de Estudos do Império Português (LEIP), coordenado pelo professor Célio Juvenal Costa, e pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPE).

O SIPC é um evento internacional acadêmico-científico itinerante, realizado em países como Argentina, Colômbia e México. Em 2018, congregou pesquisadores doutores, estudantes de pós-graduação e de graduação de diferentes regiões do Brasil e de sete países (Alemanha, Argentina, Bolívia, Colômbia, Holanda, Irlanda, México).

Em 2018, o Simpósio contou com o apoio da Norbert Elias Foundation - localizada na Holanda, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação Araucária e da Pró-reitoria de Extensão, Cultura e Sociedade (PROEX). A conferência de abertura foi proferida por Adrian Jitschin, coordenador da Norbert Elias Foundation e professor da FernUniversität Hagen, na Alemanha. O próximo SIPC será realizado em Bogotá (Colômbia), em 2020.


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