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19/09/2019  

Quando o trabalho é a causa de doenças mentais

José de Arimathéia

Empresa Júnior de Psicologia (ELO Consultoria) protagoniza estudo de documentos do INSS que estabelece nexo causal entre o trabalho e doenças mentais

Na avaliação do professor André Amaral, a aplicação do conjunto de instrumentos, reunidos em um único que os confronta, permitiu uma investigação aprofundada dos segurados

O professor André Luís Vizzaccaro-Amaral (Departamento de Psicologia Social e Institucional) concluiu, em julho, Pós-Doutorado na USP/Ribeirão Preto com informações tão importantes quanto preocupantes a respeito da saúde mental do trabalhador (SMT). A pesquisa se ocupou de documentos gerados pelo Fórum Interinstitucional de Saúde do Trabalhador (FIST) de Londrina e pelo Acordo de Cooperação Técnica (ACT) dele originado, em 2017, e que foi firmado entre o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro) e a ELO Consultoria, Empresa Júnior de Psicologia da UEL, da qual o professor é coordenador desde 2013.

A pesquisa se debruçou sobre 40 documentos oriundos do Fórum e do ACT, dos quais 31 eram relatórios de investigação psicossocial de segurados do INSS, elaborados por estagiários do curso de Psicologia da UEL, vinculados à ELO Consultoria, entre os anos de 2017 e 2018, sob a supervisão do professor. Tais relatórios estabeleceram um diagnóstico em SMT, investigando também se havia ou não nexo com o trabalho. Dos 31 casos analisados, 27 apresentaram transtornos mentais e comportamentais associados ao trabalho, notadamente relacionados a transtornos de ansiedade e depressão.

O estudo fez o registro documental e a avaliação das atividades desenvolvidas no acordo, destacando a participação da empresa júnior de Psicologia da UEL. A colaboração da empresa júnior em atividades de pesquisa em outra Universidade já rendeu um prêmio na USP em 2016, por um estudo da relação entre a gestão e a saúde do trabalhador (Notícia, 21.09.16).

André Amaral conta que em 2016 o MPT o convidou para compor o Fórum de Londrina, que reúne ainda representantes da Fundacentro, do Serviço Social (SS) do INSS e do Núcleo de Atenção à Saúde do Trabalhador (NAST) de Londrina. Considerando o trabalho premiado na USP, o professor propôs a inclusão da empresa júnior de Psicologia nas discussões do FIST e que, posteriormente, resultaram no ACT.

Nos termos do acordo, cada membro atuou numa frente. Em síntese, ao MPT coube monitorar e dar suporte às atividades e, à Fundacentro, o suporte logístico e à pesquisa. O SS/INSS ficou incumbido de selecionar e entrevistar os segurados, e o NAST, de fazer a avaliação médica. A ELO Consultoria atuou no diagnóstico em SMT e na avaliação do nexo causal. André observa que o trabalho da empresa júnior é de grande importância. "Por meio de atividades integradas e articuladas institucionalmente, ela pode realizar o trabalho com mais agilidade do que se fossem executados projetos de pesquisa e de extensão separadamente. Claro, desde que resguardados os contextos de cada projeto. E o trabalho desenvolvido no ACT demonstrou que é possível realizar atividades socialmente relevantes e de qualidade", afirma.

A pesquisa do Pós-Doutorado servirá, entre outros objetivos, para subsidiar de forma técnica e científica o Fórum, constituindo um documento que baseará um relatório geral destinado à Procuradoria Regional do Trabalho do Paraná, junto com relatórios médicos e de serviço social a serem concluídos até o final do ano. De acordo com André, o Relatório do Pós-Doutorado avaliou que o trabalho desenvolvido no ACT inova, porque reúne processos interdisciplinares multidimensionais (que investigam aspectos sociais, econômicos, clínicos e subjetivos) e interinstitucionais horizontalizados, com a empresa júnior de Psicologia atuando com papel de destaque. Tal avaliação possibilita compreender a relevância da empresa júnior na formação dos estudantes.

ABORDAGENS

O Relatório elaborou um perfil geral dos segurados atendidos no ACT. Predominantemente, eram mulheres, casadas, na faixa de 40 anos de idade, com ensino médio completo e renda familiar em torno de R$ 2.500,00 mensais, trabalhadoras do setor de teleatendimento, afastadas do trabalho por problemas osteomusculares, em decorrência das condições e processos de trabalho, e por transtornos mentais e comportamentais, em razão da organização do trabalho.

A investigação psicossocial dos segurados contou com uma série de instrumentos que, geralmente, são usados separadamente, e permitiu estabelecer o diagnóstico em SMT e avaliar o nexo entre o exercício do trabalho e os transtornos identificados, num enfoque quanti-qualitativo. Quantitativamente, foi possível constatar os aspectos socioeconômicos, o sofrimento psíquico e o estresse no trabalho. Para uma avaliação qualitativa, usou três tipos de anamnese: clínica, educacional e ocupacional. A investigação incluiu ainda duas entrevistas semiestruturadas, uma para saber mais das condições de trabalho (ambiente de trabalho e ergonomia), dos processos de trabalho (tecnologia utilizada, etapas e procedimentos) e da organização do trabalho (hierarquia, autonomia, metas, etc.) e outra para compreender aspectos da subjetividade dos segurados, levando em conta quatro dimensões: vida pessoal, autorreferência, sociabilidade e projeção do próprio futuro. A história de vida do segurado também foi objeto de uma entrevista aberta. Tudo isso foi feito pela ELO Consultoria, sob a supervisão do professor.

Na avaliação do professor André Amaral, a aplicação do conjunto de instrumentos, reunidos em um único que os confronta, ainda que em caráter experimental, permitiu uma investigação aprofundada dos segurados, sobretudo porque seus resultados foram confrontados, também, com a literatura científica. Com isso, foram obtidos resultados valiosos que podem ter consequências igualmente relevantes porque, estabelecido o nexo entre trabalho e adoecimento, muda-se o status do benefício previdenciário e, num alcance maior, impacta, de um lado, os direitos dos trabalhadores e as políticas públicas e, de outro, a qualidade de vida deles e de suas famílias.

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.399. Confira a edição completa:




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