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20/08/2019  

A fotografia como campo interdisciplinar

Agência UEL

Professora Ana Maria Mauad procura valorizar o potencial iconográfico das fotografias

Mesmo sendo considerada um fenômeno recente, a fotografia envolve uma diversidade de práticas enorme. É possível observar que hoje se reúnem para os estudos dessa categoria diferentes disciplinas como Antropologia, Geografia, Comunicação e História. Do ponto de vista dos estudos, existem pesquisas precursoras bastante significativas. É o caso da análise "Imagem pública em perspectiva historiográfica", proposta pela professora Ana Maria Mauad, que atua na área de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), durante a 7ª edição do Encontro Nacional de Estudos da Imagem (ENEIMAGEM), em maio.

A formação de Mauad como historiadora se definiu pelo uso da imagem. Sua tese de Doutorado, defendida em 1990, fez uso da fotografia como fonte histórica, com o objetivo de desenvolver uma metodologia que valorizasse o potencial iconográfico das fotografias e que, através da sua leitura e decodificação, fosse possível chegar à sociedade que produziu e consumiu aquela imagem. Para isso, voltou sua atenção a fotos de família e fotografias de revistas ilustradas, a fim de ver como sua circulação ocorria diante dos costumes e códigos de comportamento.

Como explica a docente, na época, na área de História, não havia reflexões críticas sobre o uso da imagem como fonte. Mauad trabalhou com o tema através da interdisciplinaridade, com a Teoria da Comunicação e História Cultural, por exemplo. Foi então uma das primeiras pesquisas nas quais a fotografia era fonte, mas também era o objeto de reflexão acerca da relação da produção de imagens. No caso, o espaço recortado para a pesquisa foi o Rio de Janeiro.

A professora passou a dar aula na UFF, na área de teoria, metodologia e historiografia e foi se aprofundando sobre o uso da imagem em um sentindo mais amplo da fotografia, em especial como fonte e objeto. Já em suas discussões mais recentes, a foto é também analisada como um agente histórico, assim, ela analisa a História feita com imagem.

Imagem Pública

Há alguns anos, começou a se configurar em suas pesquisas a noção de fotografia pública, associada à forma como as diferentes práticas fotográficas foram desenvolvidas, a partir de experiências históricas diferenciadas. A professora explica que a fotografia se tornou um recurso de registro, tanto da vivência social e cotidiana, como feito por meio de fotógrafos mais profissionais, e assim, começou a ser popularizada. "Comecei a identificar que ao longo do século vinte, a fotografia foi apropriada por diferentes agentes de produção da imagem. Os governos, a imprensa, empresas que produzem documentação, operavam a fotografia tanto como registro da sua própria atividade, como uma plataforma de publicização dessas atividades", acentua. A historiadora mapeou acervos e constatou que dentro da organização do espaço da modernidade, ao longo do século passado, a fotografia e as imagens de uma maneira geral cumpriram um papel na conformação de um espaço público visual. Espaço onde essa manifestação visual foi conformando o sentido e estabeleceu determinadas mensagens mais predominantes em relação às outras.

A imagem pública é menos um conceito fechado e mais uma categoria heurística, ou seja, ela ajuda a explicar determinados fenômenos. A professora acredita que é uma categoria que se compõe pela experiência histórica, que vai se organizando e definindo determinados procedimentos, a partir da prática de produzir imagem. Nesse caso, produzir fotografia, identificando os sujeitos, as situações, os agentes, a circulação e seus sentidos.

Mauad afirma que não há uma padronização dessas imagens e sim repertórios visuais para configurar determinado fato. Por exemplo, repertórios de significação, ao mostrar o antes e depois. No caso de fotografias produzidas como forma de registros por meio de ações governamentais, elas registram para produzir uma memória. Isso vai variando de acordo com os usos, funções e destinos dessas imagens. O historiador observa que existem fenômenos históricos que só podem ser conhecidos porque foram fotografados. A experiência histórica fotografada ganha sentido e abre um novo campo de possibilidades para a prática historiadora.

Eneimagem

A originalidade em abrir um espaço de confluência interdisciplinar para debater os usos e funções da imagem, olhar para esse objeto a partir de diferentes pontos de vista e envolver trabalhos por meio de uma avaliação mais precisa da atualidade e do desenvolvimento do campo, está no DNA do evento. Segundo a professora, a regularidade de eventos como o Eneimagem se dá através do investimento dos organizadores e da própria Universidade, que valoriza esses recortes mais temáticos. Mauad, que acompanha o evento desde a sua primeira edição, destaca que a profissionalização de pesquisadores se estabelece por meio da interlocução, da qualidade dos trabalhos acadêmicos e do valor científico dessas pesquisas.

Ela destaca que, de 1990 até hoje, em função de fóruns como o Eneimagem, os estudos históricos vêm constituindo uma massa crítica bastante significativa, com qualidade internacional. Ana Maia Mauad reforça que iniciativas como essa são importantes para que se possa apresentar à sociedade os resultados do investimento público feito nas universidades Brasil afora.

Estudo

A professora relembra o XXIII Simpósio Nacional da História, realizado em 2005 pela Associação Nacional de História em Londrina, quando foi criado o "Grupo de Trabalho Imagem, Cultura Visual e História". Ele envolve uma rede importante de profissionais e pesquisadores do Brasil que estudam cinema, fotografia e artes visuais voltados à discussão da manifestação visual como um elemento fundamental.

No GT do Rio de Janeiro, juntamente com Maria Teresa Bandeira de Mello, diretora geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, Ana Maria Mauad realiza anualmente, desde 2016, um fórum de discussão intitulado "Uma Agenda para a Fotografia". Ela explica que é uma iniciativa para configurar a regularidade e publicização da fotografia em diferentes centros universitários, do ponto de vista do conhecimento, mas também do arquivo, do patrimônio e dos coletivos fotográficos. Configura-se como um território comum em que os historiadores se encontram para pensar a potencia da imagem, no sentido de compreender os processos, os fenômenos e a experiência passada.

Juliana Félix - *Estagiária de Jornalismo na COM

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.396. Confira a edição completa:




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