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15/03/2013  

Projeto quer tecnologia japonesa de construção no Brasil posssui-foto

Agência UEL

Masayoshi Noguchi, Sidney Júnior Guadanhim e Ercília Hiromi Hirota

No Japão, existe uma forte indústria de casas pré-fabricadas, que vende em grande quantidade. A Panasonic, nome associado a eletroeletrônicos no Brasil, é um desses fabricantes. As casas produzidas por eles atendem a três princípios: são customizáveis (isto é, apesar de produzidas em série, são personalizáveis na cor, textura das paredes, lay-out, formato do telhado, altura da banheira, dos degraus, e outros itens), oferecem a máxima eficiência energética (para que o consumo de energia dos moradores seja o mínimo possível) e são feitas dentro de critérios de produção enxuta (máxima eficiência na gestão da obra).

No Brasil, não temos uma cultura voltada para a adoção em massa de casas pré-fabricadas, e nem dispomos de um setor industrial significativo que se dedique à fabricação de casas com base no conjunto de princípios das japonesas, mas já existe aqui um grupo de pesquisadores interessados em desenvolver, de início na academia, projetos que poderão mudar essa situação.

Professores e alunos de pós-graduação da UEL fazem parte desse grupo, que tem à frente, na instituição, a professora Ercília Hiromi Hirota, do Departamento de Construção Civil, e do qual participa, entre outros, o professor Sidney Júnior Guadanhim, do Departamento de Arquitetura.

O projeto que trata das casas pré-fabricadas – na verdade, trata de levar para outros países os princípios da indústria japonesa do setor – chama-se ZEMCH, sigla de Zero Energy Mass Customised Home (mais ou menos “casas customizadas de construção em massa que gastam ‘zero’ de energia”) e foi concebido por um professor e arquiteto japonês, Masayoshi Noguchi, que mora na Escócia e trabalha na Mackintosh Scool of Architecture, da Universidade de Glasgow.

Em sua terceira vinda ao Brasil, Noguchi esteve na UEL, onde se encontrou com mestrandos e docentes do Programa Pró-Engenharias (que reúne os mestrados em Engenharia Civil da UEL, UFRGS, UFC e UFSCAR), deu a aula inaugural dos programas de pós-graduação em Metodologia de Projetos e Arquitetura e Urbanismo e Engenharia de Edificações e Saneamento e tratou da organização de uma missão técnica brasileira que irá ao Japão, ainda este ano, para conhecer as indústrias japonesas de casas pré-fabricadas.

Masayoshi Noguchi deu a aula inaugural dos programas de pós-graduação da área de construção civil

O projeto ZEMCH, aliás, consiste em promover a ida de missões de cientistas, técnicos, executivos e empresários de outros países ao Japão, para entrar em contato com aquela realidade, e, depois, procurar “customizar” a experiência japonesa ante a necessidade e as possibilidades de cada país.

Foi ao participar de uma dessas missões, em 2010, que a professora Ercília Hirota se engajou nesse trabalho, do qual já participava o professor Carlos Formoso, da UFRGS, que será, ao lado dela, um dos líderes da missão deste ano.

“A intenção do projeto ZEMCH é gerar sinergia entre o setor produtivo e a academia”, informa Ercília. “No Canadá, país com tradição na construção de casas de madeira, já existem fabricantes que, depois de conhecer a tecnologia dos japoneses, a convite do professor Noguchi, estão trabalhando dentro daquela concepção, na qual, para se ter uma noção, as fábricas de material para as casas não produzem lixo – tudo o que entra tem aproveitamento”.

As casas no Japão não são necessariamente de madeira, como ocorre no Canadá, lembra a professora Ercília. “Muitos japoneses ainda querem casas de madeira, mas, em função dos riscos de terremotos, as fábricas utilizam tecnologias consideradas mais seguras, como estruturas metálicas, placas de concreto leve, placas de gesso. Materiais que oferecem segurança e sustentabilidade”. 

Mas o que está sendo feito no Brasil, dentro da ótica do projeto ZEMCH?

A professora Ercília explicita, inicialmente, dois aspectos nos quais a diferença entre a situação japonesa e a brasileira é mais patente. “Vi uma preocupação autêntica do setor produtivo em agregar valor para o cliente. Eles, de fato, se ocupam em atender o cliente naquilo que é o melhor para ele”, diz, em primeiro lugar. E o segundo fato é que, no Brasil, a habitação de interesse social constitui uma prioridade, enquanto, no Japão, esse é um problema resolvido. “O tema da habitação, lá, é tratado pelas regras do mercado. A indústria de casas pré-fabricadas existe para atender a classe média”.

Já por aqui – mais ainda, na UEL – estudam-se fórmulas para melhorar a habitação de interesse social. “Não basta dar teto, como tem sido a nossa prática nesse âmbito, temos que dar condições às famílias para que permaneçam em suas novas casas e fazer casas com mais qualidades, mas cujo custo possa ser pago pelos seus moradores”, diz a professora.

Existe uma equipe, que envolve professores e alunos, fazendo uma avaliação pós-ocupação do Conjunto Vista Bela, na Zona Norte, que pretende verificar o que os moradores gostariam de ter encontrado quando se mudaram para lá. Algumas coisas já são sabidas: “Por exemplo: não se cogitou em deixar área para o comércio num bairro com duas mil casas. Onde que já se viu uma coisa dessas? E praças? Como as pessoas poderão se encontrar sem praças? São aspectos muito mais relevantes e que podem agregar mais valor às casas do que uma tinta verde na parede...” enfatiza a professora.

A propósito da habitação de interesse social, o professor Sidney Júnior Guadanhim, coordenador de projetos de arquitetura da equipe, acrescenta que, no Brasil, “estamos há 40 anos produzindo maus exemplos, casas de baixa qualidade”. Ele reconhece, referindo-se ao projeto ZEMCH, que o contexto brasileiro “é muito diferente daquele dos países do Hemisfério Norte”, mas nem por isso devemos deixar de buscar fazer casas levando em conta a economia de energia (a ser gasta em seu uso), velocidade e racionalidade na construção e o atendimento das necessidades específicas do cliente. “No Norte precisam aquecer as casas, aqui precisamos refrigerá-las, e isso também significa gasto energético. E temos inverno rigoroso também, em algumas regiões. Além do mais, sabemos que a produção em massa de casas, como vem sendo feita no Brasil, não leva em conta o interesse do usuário, ele é que terá de fazer as adaptações necessárias, mais tarde. São essas questões que queremos estudar”.

O atendimento de outros segmentos da população também está na pauta, isto é, está estabelecida uma ponte entre a academia e o setor produtivo. “Conseguimos a adesão da LP Brasil, multinacional de origem canadense que produz casas e detém 70% do mercado no Chile”, diz a professora Ercília. “Eles vão nos fornecer o material para a produção de protótipos, dentro do nosso projeto”.

Já o professor Masayoshi Noguchi, falando sobre suas relações com os parceiros brasileiros, disse que tem uma grande identificação com o Brasil, num quesito que é muito caro para ele – o da sustentabilidade. Vê no país uma “vocação” para o tema, comprovada pelo fato de ter sido o país-sede de duas importantes conferências mundiais, a de 1992 e a de 2012. Quanto ao trabalho que o grupo do Projeto ZEMCH vem realizando, acredita que alcançará sucesso, mas não sem uma boa dose de ousadia. “O nosso grupo tem que atuar como um novo ‘Steve Job’, vamos precisar usar muita criatividade para superar os grandes desafios à nossa frente”, traduziu a professora Ercília.


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