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O pódio é possível
Representantes do atletismo londrinense nos Jogos de Londres, Lucimar Teodoro e Codó dizem que vão atrás de medalhas no revezamento
Representantes do atletismo londrinense nas Olimpíadas de Londres, de 25 de julho a 12 de agosto, Lucimar Teodoro, 31 anos, e José Carlos Gomes Moreira, o Codó, 28, estão confiantes na conquista de medalhas na maior competição esportiva do mundo. Ambos irão competir no revezamento, mas há a possibilidade da equipe brasileira escalar um ou outro – ou os dois – em provas individuais. Mais experiente, Lucimar vai para sua terceira olimpíada. Ela correrá o 4x400m feminino. Codó, por sua vez, diz que irá a Londres para buscar o pódio com a equipe do 4x100m masculino.
Lucimar Teodoro está na equipe Londrina Caixa Itamaraty UEL de Atletismo há um ano. Ela praticamente fez sua carreira em Presidente Prudente (SP), até vir para a cidade em junho do ano passado, depois de superar o trauma de uma suspensão de dois anos por doping no Troféu Brasil de Atletismo, no Rio, em 2009, quando deu positivo para uma substância proibida usada para emagrecer.
A atleta, que também pode disputar os 400m em Londres, nasceu em Guararapes (SP) e cresceu em Três Lagoas (MS). Foi lá que ela acabou sendo descoberta pelo ex-meio-fundista Zequinha Barbosa, que viu Lucimar dominar as provas escolares. Em Presidente Prudente, a atleta correu por 14 anos e colecionou bons resultados nacionais e internacionais.
Em termos físicos, Lucimar diz que está muito bem para quem voltou a competir há apenas oito meses. “Estou muito bem. Me surpreendi. Quando Deus coloca a mão, ninguém tira. Eu tenho que agradecer ao povo de Londrina, meu treinador Gilberto Miranda, a equipe que me recebeu, outras pessoas que me ajudaram, a minha família, que sempre esteve ao meu lado. E fico feliz em retribuir com minha ida a Londres e tentar fazer um resultado bom lá. Porque tanto a equipe de Londrina como minha família acreditaram em mim”, afirma Lucimar.
Segundo ela, a possibilidade de disputar a final dos 4x400m é real porque as quatro atletas titulares (Lucimar, Geisa Coutinho, Joelma Souza e Jailma Lima) melhoraram suas marcas pessoais na semana passada no Troféu Brasil e há margem para melhorar ainda mais.
Movido a emoção
José Carlos Gomes Moreira, o Codó, é mais um maranhense-londrinense. Chegou na cidade em 2004. De vez em quando sai por um período, mas logo “fica desesperado para voltar”. Campeão do Troféu Brasil nos 100m rasos, semana passada, ele não alcançou o índice olímpico para a prova, mas foi convocado para o revezamento 4x100m. Nessa prova, ajudou o Brasil a conquistar um ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de 2007. “Tudo vai depender de quando a gente chegar lá. Estamos focados no revezamento. Estamos bem e com chances de medalha. A prova individual, se pintar, vai ser ótimo”, diz Codó, que foi chamado em lugar de Diego Cavalcanti e compõe a equipe junto com Sandro Viana, Bruno Barros, Aldemir Silva, Carlos Júnior e Nilson André (dois serão reservas).
Codó conta que o que o move é a emoção. “É a força de vontade, a garra, a família, irmãos, pais, que sempre me apoiaram. Hoje meu objetivo é buscar a melhora de vida para minha família. Um atleta é movido por emoções, a torcida, as pessoas que acreditam, isso me dá muita força para sempre buscar melhor”, diz.
Marcos Cesar Gouvea
Ouro verde
Não tenho nada contra o Ouro Verde, ao contrário, assisti espetáculos memoráveis naquele local. Mas é preciso virar essa página. Infelizmente o Ouro Verde já era... Na minha opinião, deveriam demolir o que sobrou, vender o terreno para algum empreendimento comercial e, com o dinheiro, construir um novo teatro, moderno e em um local de fácil logística. Devemos olhar para frente, pensar no futuro. Para que tentar ressuscitar morto?
André Tottene
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Juventude clássica
Alunos dos projetos Musicando na Escola e Orquestra Prelúdio se apresentam neste sábado em Londrina
Pela primeira vez, jovens instrumentistas do projeto Musicando na Escola vão realizar um concerto em formação de orquestra de câmara. A apresentação acontece neste sábado, às 20 horas, no Circo Funcart, em Londrina. O evento também contará com a participação da Orquestra Prelúdio, da Universidade Estadual de Londrina.
Tendo no repertório obras clássicas de compositores como Bach, Vivaldi e Mozart, o concerto também comemora o sucesso de ambos projetos, que começaram como iniciativas pedagógicas e que agora adquiriram um reconhecimento importante da sociedade. ''Quando comecei este trabalho, pensei que poucas crianças iriam se interessar realmente por música instrumental. Fiquei surpresa em ver a quantidade de inscritos que gostaria de estudar instrumentos de orquestra'', relembra Regina Grossi, que há 10 anos trabalha com crianças de escolas públicas, fomentando o interesse dos mais jovens pela música clássica. ''O trabalho que nós realizamos desenvolve o raciocínio, a sensibilidade e a acuidade sonora. Isso tudo muda a vida da criança'', analisa.
Anualmente, cerca de 120 alunos de escolas públicas londrinenses participam das oficinas de violino, violoncelo, prática de orquestra, música de câmara, musicalização e canto coral do projeto Musicando. Em uma década, passaram pelo projeto mais de 700 crianças. ''Vejo que, acima de tudo, os pais descobriram a importância do desenvolvimento de seus filhos através da música, e isso é muito positivo. É gratificante'', comemora Regina.
Afinado na mesma melodia, o Projeto Prelúdio - fundado pela Casa de Cultura da UEL - também há sete anos oferece atividades de formação musical gratuitas na cidade, capacitando jovens de todas as classes sociais através da montagem de uma Orquestra e de oficinas periódicas, que ensinam diferentes instrumentos e difundem o conhecimento da música erudita. Regida pelo músico Juraci Barbosa, no repertório executado pela Orquestra Prelúdio estão peças especiais de Offenbach, Giovanno Dettori e Guerra-Peixe.
Serviço:
- Concerto dos projetos Musicando na Escola e Orquestra Prelúdio
Quando - Sábado, às 20h
Onde - Circo Funcart (R. Sen. Souza Naves, 2380)
Quanto - R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Rafael Ceribelli - Reportagem Local
VISTA BELA - Um processo lento de adaptação
A mudança para o residencial da Zona Norte, que transformou a vida de muitas pessoas, também revelou dificuldades de adequação ao novo estilo de moradia
Ao longe, a vista surpreende. São milhares de casas e apartamentos agrupados em um só local, no alto da Zona Norte de Londrina. Em junho do ano passado, o sonho de muitas famílias começou a ganhar forma em pouco mais de 40 metros quadrados. Andar pelas ruas do Residencial Vista Bela é encontrar em cada janela uma história. Os relatos de famílias que ainda estão se adaptando são inúmeros e singulares. Muitos se arriscam a dizer que a vida tem melhorado. Porém, há aqueles que mesmo com uma casa de alvenaria e um endereço fixo, não esquecem a vida ''deixada'' no fundo de vale e até sentem saudade, revelando dificuldade para se encaixar ao novo estilo de moradia.
Um exemplo é Cosma Maria da Silva, 52 anos, que há um ano deixou um barraco feito de tábuas no Jardim Marabá (Zona Leste) para viver no Vista Bela com o marido, duas filhas e três netas. ''Eu gostava de onde morava porque eu podia criar meus bichinhos e vivia tranquila. Se pudesse, voltava para lá'', supreende.
A renda familiar é quase toda proveniente do Bolsa Família. Por enquanto, Cosma e o marido estão desempregados e por isso as contas fixas também entram na lista de dificuldades. ''Todo mês tenho conta de água, luz e a prestação da casa. Vou ter que começar a vender umas galinhas'', contabiliza ela, que no quintal de casa já providenciou um galinheiro e uma horta, além de criar cachorros e até uma pata.
Pesquisa
O aumento de gastos e as dificuldades de adaptação são recorrentes entre as moradoras do Vista Bela. O fato foi constatado em uma pesquisa realizada em janeiro deste ano, como parte do projeto de extensão do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Com o objetivo de levantar dados para a compor ações de combate à violência contra a mulher, foram entrevistadas 60 moradoras do residencial, entre outras centenas de londrinenses de várias regiões da cidade.
''Muitas famílias do Vista Bela tinham acesso à água encanada e à energia elétrica através de ligações irregulares e hoje estão pagando por esses e outros serviços. Além disso, muitas delas não estão conseguindo se adaptar a determinadas regras, como a proibição de praticar comércio irformal'', avalia a doutora em Sociologia Silvana Mariano, coordenadora da pesquisa.
A distância do Centro da cidade e a falta de serviços básicos como escola, creche e posto de saúde também estão entre as principais queixas. De acordo com a pesquisa da UEL, das 60 entrevistadas, 32 têm filhos em idade de creche e 23 delas estão sem trabalho. ''A grande maioria trabalhava como diarista. Elas alegam que não têm com quem deixar as crianças e que devido aos custos com transporte tiveram que abrir mão de seus trabalhos'', afirma Silvana.
Ela ressalta que o tempo de adaptação à nova realidade social depende do histórico de cada pessoa. ''Muita gente que vivia em assentamentos não está acostumada a certas regras sociais. O direito à moradia é fundamental, mas precisa vir acompanhado de infraestrutura, senão a pessoa fica com a sensação de que tem teto, mas lhe falta todo o resto'', destaca. Ela diz que esse problema é agravado pela construção de grandes bairros em áreas distantes da região central, limitando o acesso a uma série de serviços culturais, econômicos e políticos.
As primeiras 178 unidades do Vista Bela foram entregues no dia 28 de junho do ano passado. Atualmente, são 2.712 moradias, sendo 90 prédios com 1.440 apartamentos e 1.272 casas. Os projetos segue um padrão com dois quartos, sala conjugada com cozinha e banheiro. Cada unidade custa em torno de R$ 45 mil e o valor das prestações gira em torno de R$ 50 mensais.
Marcos Roman e Micaela Orikasa - Reportagem local
Massacre verbal
Baseado em peça teatral, ''O Deus da Carnificina'', tem humor afiado e ótimo elenco, mas pouca ambição cinematográfica
Uma comédia que se sustenta ao alfinetar os padrões comportamentais da sociedade moderna, o filme ''O Deus da Carnificina'' - que estreia esta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é uma experiência interessante, de humor afiado, mas que decepciona pela falta de propósito e de ambição cinematográfica.
Baseado no roteiro da peça francesa ''Le Dieu du Carnage'', logo no começo fica evidente a vocação teatral do longa: a história toda se passa entre quatro paredes de um apartamento do Brooklyn, onde dois casais discutem um incidente (mostrado, ao fundo, durante os créditos iniciais do filme) que aconteceu entre seus filhos. Com um comportamento amigável no princípio, a politicamente correta Penelope (Jodie Foster) e seu marido 'capacho' Michael (John C. Reilly) tentam chegar a um acordo com a apaziguadora Nancy (Kate Winslet) e seu marido Alan, que é um poderoso advogado da indústria farmacêutica (Christoph Waltz).
Após algumas conversas sobre a briga dos filhos e de um acordo selado em um contrato assinado por ambos os casais, tudo parece em ordem, mas o clima amistoso começa a mudar após algumas xícaras de café. Depois de algumas observações ácidas de um casal para o outro, a máscara da cordialidade começa, lentamente, a se desprender do rosto de cada um dos personagens, revelando os seres humanos prepotentes e egoístas que estavam escondidos por detrás dos apertos de mão amigáveis.
Sempre cercado por uma aura de falsidade - repare a postura auto-referente de Penelope (''Porque com meu filho eu faço assim'') e o olhar entediado de Nancy, que aceita tanta besteira até, literalmente, vomitar - não é surpresa que o espectador acabe torcendo para o desprezível personagem de Alan; ele não faz questão de ser educado, e suas observações sinceras é que são o gatilho da discussão que sustenta o filme.
Mesmo dirigido pelo veterano Roman Polanski e estrelado por quatro atores de peso (três deles já ganharam o Oscar), os diálogos têm altos e baixos. Preso dentro de apenas um cenário, o longa perde muito por não abrir mão de seu espírito 'teatral', que limita as possibilidades narrativas e torna tudo superficial - por que, afinal, eles não vão embora? Qual o motivo de todos ficarem ali, evidentemente contra a vontade, naquela sala de apartamento? A impressão é de que Polanski escolheu dirigir ''O Deus da Carnificina'' em marcha lenta, sem nunca tentar sair da zona de conforto proporcionada pelo seu roteiro pronto.
Ancorado, em diversos momentos, pela competência de seu elenco, é admirável perceber como cada um dos atores consegue conferir camadas aos seus próprios personagens, e nisto reside a força maior do filme. É apenas enquanto os casais estão se entediando mutuamente - conversando sobre as suas próprias profissões, seus filhos ou o bolo de frutas de Penelope - que o longa se arrasta como uma visita indesejada.
O filme termina em um grande anti-clímax e, após o fechar das cortinas, não sobra muito o que discutir sobre os motivos reais de cada um de seus personagens. Se fosse o fim de uma peça no teatro, você aplaudiria. Mas não de pé.
Rafael Ceribelli - Reportagem Local
Boca saudável, sorriso garantido
Crianças da Zona Leste recebem orientações e tratamento odontológico: atividades preventivas, educativas e curativas
O sorriso no espelho é um orgulho para as crianças da Zona Leste de Londrina, que estão aprendendo agora a importância de cuidar bem dos dentes. Muitas delas, que nunca tiveram antes um contato com um dentista, estão descobrindo a importância da escovação correta e que ela deve ser feita após as refeições.
''É legal ver o dente limpinho. Tem dia que eu não escovo os dentes, mas daí ele dói mais'', comenta Itiele Tamires da Silva Alves, de 9 anos. Roderjan Maia Silvano, 12, também descobriu que não basta escovar os dentes uma vez por dia. ''Tem que ser três vezes ou mais'', afirma. E a Layane Tamires Rodrigues Lucas, 9, explica como deve ser a escovação. ''Tem que fazer bolinha com a escova'', diz.
Todo esse aprendizado só está sendo possível pela iniciativa da professora Beatriz Brandão Scarpelli, coordenadora do projeto de extensão ''Cuidado com a Saúde Bucal de Crianças e Adolescentes que Vivem em Bairros Carentes do Município de Londrina'', da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que firmou uma parceria com o projeto Galera de Deus Escola de Valores, que atende crianças carentes.
''O objetivo é envolvê-las em atividades preventivas, educativas e curativas no âmbito da saúde bucal'', explica Beatriz, que deu início ao projeto no começo do ano. ''Essas crianças têm dificuldade de acesso ao tratamento odontológico e as clínicas da UEL sempre precisam de pacientes. Funciona como uma ponte'', diz ela, ao ressaltar que futuramente pretende ampliar o programa para outras regiões.
Ao todo, 15 alunos da UEL prestam atendimento quinzenalmente no Galera de Deus. Eles orientam as crianças sobre a escovação e fazem avaliações. Uma delas é Carolina Peres da Silva, residente em Odontopediatria. ''Percebemos que a maioria delas nunca teve contato com o dentista. Muitas apresentam cáries e precisam de tratamente específico. É por isso que hoje estamos fazendo uma triagem para encaminhá-las à consulta'', afirma. Os materiais de higiene foram doados ao projeto.
A consulta está agendada para o dia 31 de julho e os novos pacientes serão encaminhados à Clínica Odontológica Universitária em um ônibus da UEL. ''Já foram triadas cerca de 80 crianças e alguns familiares também foram atendidos'', conta Maria Luiza Casanova, do Galera de Deus.
De acordo com ela, a ideia de levar os dentistas até as crianças é resultado do projeto ''Ações Multidisciplinares para Estruturação Familiar e Inclusão Social em Bairros Pobres de Londrina'', onde por meio de parcerias são realizadas atividades lúdicas de comportamento pró-social, alfabetização, entre outras.
Micaela Orikasa - Reportagem Local
‘Ainda temos muito que avançar’
A professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Silvia Meletti, acredita que a inclusão esteja ocorrendo em Londrina de modo satisfatório, principalmente nas escolas públicas, que, segundo ela, teriam mais estrutura como adaptações arquitetônicas, pessoal especializado e materiais adequados.
''Por outro lado, ainda temos muito que avançar tanto no número de alunos com necessidades educacionais especiais que têm acesso à escola regular quanto no trabalho destinado a esta população. Não é um processo fácil, mas os estudos indicam que para boa parte dos alunos com necessidades educacionais especiais o mais adequado é a inserção em espaços regulares de ensino e não a permanência em sistemas segregados como historicamente ocorreu em nosso país'', pontua.
Sílvia analisou o processo de inclusão de alunos com deficiência no sistema regular de ensino de 2007 a 2009, na rede de ensino de Londrina e desde 2010 investiga os dados oficiais da inclusão, por meio da análise do Censo da Educação Básica, no Brasil, Paraná e em municípios de cinco estados.
A ampliação de verba destinada à rede pública de ensino e do quadro de profissionais especializados na escola regular e nas equipes multidisciplinares responsáveis pelos processos de avaliação e de encaminhamento dos alunos com necessidades educacionais especiais são dois pontos que precisam ser melhorados, segundo a professora. ''Em síntese, melhorar as condições gerais de trabalho do professor e da equipe multidisciplinar'', avalia Sílvia.
Segundo indicadores apresentados pelo Censo Escolar do ano passado, a inclusão passou de 28% em 2003 para 74% em 2011. Para Martinha Clarete Dutra dos Santos, diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação, esses números refletem a mudança decorrente da implementação da política de inclusão.
''Os desafios são permanentes, já que o sistema educacional deve estar em constante transformação, considerando que a singularidade de cada estudante público-alvo da educação especial suscita a necessidade de novo planejamento e estratégias de ensino, assim como um plano individual de atendimento educacional especializado'', destaca. (E.G)
DE OLHO NO VOTO - 'Propaganda eleitoral tem que ser respeitosa com o público'
Para cineasta e cientista política da UERJ, eleitor brasileiro exige qualidade audiovisual, o que encarece as campanhas na TV
A partir de julho estão liberadas oficialmente as campanhas para candidatos a vereador e a prefeito. As atenções se voltarão aos comerciais e programas televisivos do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Será a oportunidade para os eleitores conhecerem com mais detalhes a vida e as propostas de cada postulante aos cargos públicos.
O momento é oportuno para discutir a história da propaganda política e para perceber que muitas estratégias de marketing eleitoral são antigas, com origens até na década de 1950.
Estas conexões entre campanhas do passado e do presente estão no documentário ''Arquitetos do Poder'', lançado em 2010 e dirigido pela doutora em Ciência Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Alessandra Aldé, em parceria com o cineasta Vicente Ferraz. O filme recupera as campanhas presidenciais de Getúlio Vargas até a reeleição de Lula em 2006 a partir dos depoimentos dos publicitários e marqueteiros que constroem a imagem midiática do candidato.
Alessandra Aldé, que também é pesquisadora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), chama o documentário que dirigiu de ''resultado audiovisual de uma pesquisa acadêmica'', capaz de mostrar em detalhes a evolução das campanhas por meio dos veículos de comunicação. ''O brasileiro é um consumidor exigente em relação às propagandas políticas porque sabe que a nossa produção televisiva tem boa qualidade'', avalia a professora, em entrevista concedida no campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Convidada pelo Mestrado em Comunicação Visual da UEL, a pesquisadora comentou detalhes do documentário e fez conexões entre as eleições presidenciais e as das prefeituras de grandes cidades, como Londrina. ''Na corrida à prefeitura também ocorre: os discursos dos candidatos vão se tornando muito parecidos porque são falas que eles acreditam que o povo quer ouvir'', aponta a pesquisadora.
Como surgiu a ideia de um documentário sobre política feito a partir da iniciativa da academia?
Foi um desejo acadêmico e também um resultado de pesquisa acadêmica, só que audiovisual. Estudo e dou aula de política para comunicação há muitos anos e sempre tive vontade de passar aos alunos essa história sobre a mídia e as eleições no Brasil. A gente recupera a trajetória da evolução das campanhas eleitorais e de como a mídia se tornou o elemento central. A produção ganhou muito com a parceria do Vicente Ferraz, que é cineasta de qualidade, talentoso e que gosta muito de política.
Além do filme, existem outras iniciativas que buscam um diálogo mais direto da academia com a sociedade?
O filme não foi a única iniciativa neste sentido. Temos desde 2000 no site do IUPERJ um espaço onde conseguimos divulgar resultados de pesquisa em tempo real ao longo das eleições e isso alimenta de certa forma as próprias eleições e a discussão que as envolvem. A sociedade tem informação ao mesmo tempo em que as coisas estão acontecendo. O que acho é que falta uma produção mais autônoma e um diálogo mais direto. Seria convidar a sociedade para compartilhar este conhecimento.
E aí vem a relação com a mídia, com a imprensa...
Eu, como estudiosa das eleições sou bastante procurada, tanto pelos jornalistas quanto pelas próprias universidades, quando o assunto é eleição. Engraçado é que eles se lembram da gente somente quando é época das eleições. Acho que academia produz sim e discute questões políticas. A academia é até convocada para este papel político pelos jornalistas. Ocupar os espaços na imprensa, como estamos fazendo agora, é importante.
No documentário tem uma frase marcante do publicitário Paulo de Tarso, criador das primeiras campanhas do PT (autor do jingle ''Lula lá'', por exemplo, e depois coordenador das produções da Marina Silva (PV) em 2010): a campanha eleitoral no Brasil é cara porque tem relação com a abrangência no País e também porque o voto foi uma conquista demorada ao longo dos anos. O que pensa disso?
Eu acho que tem essa questão do custo da democracia por causa da informação. Se você tem a população participando maciçamente da eleição como tem no Brasil, onde o voto é obrigatório, você tem que fazer essa informação chegar até essas pessoas. Tem que pensar em uma campanha que atinja tanto o Rio Grande do Sul quanto a Amazônia. Esse custo existe desde lá atrás, nas eleições dos anos 50 e 60. Por outro lado, as campanhas atingiram valores astronômicos que acho que não são necessários.
Tem ainda o custo dos marqueteiros e da tecnologia...
Poderia ter aí algumas regras que limitassem os gastos, mas é importante não proibir os partidos de usar os recursos da televisão porque ela é importante. Curioso é que os custos aumentam porque a linguagem de TV aqui precisa ser bem produzida. O brasileiro é um consumidor exigente em relação às propagandas políticas porque sabe que a nossa produção televisiva tem boa qualidade. Se o candidato vai para uma campanha chinfrim, feia, mal dirigida, ele não vai ter boa receptividade.
Não sei a senhora se conheceu um pouco da realidade política londrinense, onde há processos, investigações e outras situações curiosas. O documentário foca as eleições presidenciais, mas é possível usá-lo em discussões sobre campanhas regionais, em salas de aula de Londrina?
Vocês têm na disputa para prefeito a mesma lógica majoritária, já que aqui tem horário político para os candidatos. Na TV, ele tenta atingir um grande e variado público. Tem a questão de não poder radicalizar a discussão porque eles querem o voto de todos os eleitores. Na ciência política tem uma lógica que chamamos ''Catch All'', que é quando os partidos querem pegar todo mundo. Você deixa de perceber a diferença entre os programas de governo, entre os partidos, porque eles se baseiam todos em pesquisa - e isso na corrida à prefeitura também ocorre - e os discursos vão se tornar muito parecidos porque são falas que eles acreditam que o povo quer ouvir.
E isso acaba nivelando por baixo a percepção do público eleitor?
Eu não gosto de uma certa desqualificação do eleitor que às vezes vemos embutida no marketing político. Na verdade, o eleitor é bastante razoável e os candidatos sabem disso. A propaganda no horário eleitoral é um espaço onde eles oferecem informações que serão avaliadas pelo povo. O (candidato à presidência) José Serra, em 2010, fez algumas declarações e propostas tão irreais que as pessoas não acreditaram, como, por exemplo, o aumento do salário mínimo para R$ 700. Os candidatos não podem falar qualquer coisa. A propaganda tem que ser respeitosa com o público.
Quais os projetos futuros? Teremos um ''Arquitetos do Poder - Parte II''?
Não quero mais fazer filme porque dá muito trabalho, mas pensamos em transformar o que já temos em uma série de cinco programas, incluindo a eleição de 2010, porque foi neste ano que lançamos o filme. Também pretendo transformar o documentário em livro porque muitos estudantes não pegam os contextos expostos no filme porque são muito jovens.
Emerson Dias - Especial para Folha