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07/05/2012  

SINOPSE - A UEL NOS JORNAIS (6-5-2012 - Domingo)

De acordo com as edições digitais dos jornais disponibilizadas no dia.

Agência UEL

www.folhadelondrina.com.br

PESQUISA CIENTÍFICA - 'Vivemos um momento único e fantástico'

Para a doutora em Neurologia Doralina Brum, o Brasil está disposto a investir, mas é preciso ter interessados em pesquisar

Uma das mais respeitadas pesquisadoras brasileiras na área de nanoneurologia e transplante autólogo de células-tronco, Doralina Guimarães Brum Souza afirma que a pesquisa brasileira nunca recebeu tantos investimentos e que o setor nunca viveu um momento tão promissor. A médica, que atua principalmente no tratamento de doenças neurodegenerativas e trabalhou por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, assumiu recentemente o cargo de docente assistente de neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu. Doralina esteve em Londrina recentemente para integrar banca de defesa de dissertação de mestrado na área de esclerose múltipla, no Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

''Vivemos um momento único e fantástico. Basta ver os editais. Há grandes programas praticamente implorando que nós, profissionais, façamos conexões com instituições do exterior, para trazer tecnologias e também para produzi-las'', observa a médica. Ela diz que tem visto o Brasil melhorar, as coisas acontecerem, mas alerta que é preciso estar atento, correr atrás. ''Quem se propõe a fazer projetos, hoje, consegue recursos. Este é o modelo que deve ser desenvolvido'', defende.

A pesquisadora reconhece, porém, que ainda há muitas falhas a serem corrigidas. Uma delas refere-se aos talentos brasileiros que foram para o exterior e não voltaram. Segundo Doralina, muitos tentam retornar, mas não há nada efetivo que os incentive a isso. ''Por que não se faz uma chamada dos pesquisadores brasileiros dispostos a voltar ao País?'', questiona.

Como estão os investimentos do governo em pesquisa, sobretudo no que diz respeito a doenças raras?

As pesquisas na área de doenças autoimunes do sistema nervoso central estão em situação bem favorável. Nunca se gastou tanto dinheiro em pesquisa no Brasil. O governo lançou, por exemplo, o Programa Ciência sem Fronteiras, que está internacionalizando o profissional brasileiro. E entre estes profissionais podem estar, inclusive, os que ainda estão na graduação e se empenharem. Os que se sobressaírem são os que vão conseguir bolsas de estudos em outros países. Há uma tendência hoje no Brasil de internacionalização e globalização do conhecimento, e há vários programas para isso. Só que é preciso sentar e escrever os projetos. Sem isso, ninguém ganha nada.

É preciso, então, uma mudança de foco do profissional?

As pessoas precisam entender que uma coisa são os hospitais, outra são as universidades e suas faculdades. O tripé das faculdades de medicina é formado pela graduação, pesquisa e extensão, desenvolvida dentro do hospital - seja ele universitário ou hospital de clínicas. Já a assistência é algo completamente diferente, significa atender pacientes ou orientar o trabalho de formação de novos especialistas. Ocorre que o governo federal não está preocupado com especialistas. Para isso cada Estado mantém suas bolsas próprias. Hoje o governo está com as atenções voltadas para a graduação, pesquisa e ensino. Porém, o trabalho de pesquisa, de escrever, leva muitas horas. É outra profissão. Ainda há um desequilíbrio: o tempo que os profissionais deveriam dedicar a projetos de pesquisa para conseguir melhorar o nível de assistência - e aqui estamos falando de qualidade, e não de quantidade - ele gasta justamente atendendo.

E dinheiro para pesquisa tem...

Tem, mas falta à maioria dos profissionais que estão aí a cultura da pesquisa. Por isso temos que estimular os que estão vindo. É preciso incentivar a figura do pesquisador, independentemente se é médico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, o que for. É possível ser pesquisador dentro de qualquer profissão, mas temos que aprender a sentar e fazer projetos que tenham começo, meio e fim, que justifiquem os gastos às agências de fomento. O País tem aumentado gradativamente os recursos destinados à pesquisa, mas é preciso mais gente fazendo. Quanto mais pedirmos, com todas as justificativas e argumentos necessários, mais vamos ganhar.

Mas como incentivar crianças e jovens a se tornarem pesquisadores?

Investindo em educação, ensinando a ler e a escrever de fato, capacitando crianças e jovens para se expressarem. Temos que inverter a corrente e ir atrás daqueles alunos que estão no começo da vida escolar e começar a prepará-los para ser pesquisadores. Por exemplo, quando eles aprendem algo de neurociência no primário, com método adequado à idade, eles não esquecem. É uma forma de plantar uma sementinha, porque a neurociência abre a mente para qualquer ciência. Mas temos um problema sério: quem trabalha com pesquisa no Brasil não ganha dinheiro como quem não o faz. O médico, por exemplo, ganha muito mais trabalhando em seu consultório. Se entendermos que o reconhecimento se dá por meio do salário, ele não existe. É preciso um amor desmedido, porque é pouca a gratificação material.

E as novas gerações estão preparadas para isso?

Temos que entender a ética das novas gerações, para não ficarmos simplesmente colocando defeitos. A época da escravidão passou faz tempo, e os jovens sabem disso, por isso dizem não ao desrespeito, à falta de lazer. As gerações mais velhas estranham isso porque sempre foram muito subservientes, tolerantes por demais. Quer dizer, se as pessoas não forem mais bem remuneradas, vai chegar um momento em que ninguém mais vai querer fazer isso (pesquisa).

A questão dos baixos salários é a principal fragilidade da pesquisa hoje no Brasil?

A falta de investimento no profissional, que começa na mais tenra idade, e a baixa qualidade do ensino ofertado já nos anos iniciais, somada aos baixos valores de remuneração daqueles que estão entrando no mercado, são questões a ser resolvidas. Outra característica preocupante no Brasil é esta de ir formando as pessoas em cursos de mestrado, doutorado, sem saber direito para quê. Muitas delas a gente não vê se colocando no mercado. E não há um controle de quantos novos profissionais são formados, se existe espaço para todos, se não existe. Em outros países há um limite muito bem definido.

A tarefa agora, então, é fazer valer a pena ser um pesquisador?

É isso, porque olhando de fora todo mundo acha bonito, há uma admiração pelo nosso trabalho, mas ninguém nos pergunta como pagamos nossas contas. Em países desenvolvidos a realidade é bem diferente. Além disso, aqui há uma cultura de trocar trabalho pela garantia de ter o nome no artigo científico, como coautor. Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe isso. Ninguém faz pesquisa de graça.

O que dá para esperar para o futuro da pesquisa no País?

Acho que vai depender muito dos profissionais maduros de hoje, eles têm que trabalhar a favor dos que estão vindo por aí, proporcionar aos jovens o interesse precoce pela pesquisa, porque isso é cultural. Gostar de pesquisa, partir para a iniciação científica já no curso de graduação, tem que ser algo natural para as novas gerações. A pesquisa é uma janela da esperança, é ela que não nos deixa acomodar, que faz nos sentirmos instigados a promover mudanças. Mas ainda convivemos com fragilidades, e a maior delas não está ligada aos governos recentes, e sim à nossa história, à nossa colonização. O conhecimento ainda é visto como uma moeda de poder, e às vezes ele é trancado a sete chaves. É preciso ter a visão de que conhecimento tem que ser compartilhado. Isso faz parte do nosso crescimento.

Silvana Leão - Reportagem LocalM

Criminalidade não distingue gênero

O debate sobre o aumento do número de mulheres como autoras de crimes se arrasta desde os anos 1990, mas a socióloga Silvana Mariano, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), revela que até agora não há teoria sobre o tema. ''O foco dos estudos é sempre a mulher como vítima da violência'', diz.

Ela defende, entretanto, que as mudanças estruturais, materiais e culturais da sociedade possam explicar esse fenômeno. ''Hoje, com o confinamento doméstico das mulheres em parte superado e a maior equalização nos papéis de gênero, elas têm maior participação em todas as esferas da sociedade, inclusive no crime'', pontua, acrescentando que, assim, a violência e a criminalidade parecem não mais distinguir masculino e feminino.

Outro aspecto apontado pela socióloga é que o crescimento do número de mulheres criminosas derruba o mito de que elas não cometem transgressões e, quando o fazem, é por amor. Por outro lado, lembra que, em números absolutos, a presença das mulheres no sistema penitenciário é baixo em relação aos homens, mas escandaliza pelo imaginário social que leva em conta as construções dos papéis de cada gênero.

Silvana aponta ainda o crescimento do tráfico de drogas como um fator que explica o súbito aumento no número de detentas. E lembra que a maior presença de jovens relaciona-se com o fato de a juventude, em geral, ser mais suscetível ao tráfico e à violência urbana.

Independentemente do sexo, a professora avalia que os presos, da forma como são isolados em uma ''nova sociedade'' no sistema prisional, têm poucas chances de ressocialização quando terminam de cumprir a pena, o que acaba levando à reincidência. Por isso, uma solução seria a redução do sistema carcerário. Além disso, a oferta de boas oportunidades para grupos socialmente em desvantagem poderia interferir no crescimento no volume de presas, assim como a revisão do acesso à Justiça. (C.A)



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