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A dança da vida
''O Último Dançarino de Mao'' peca no clichê, mas não chega a estragar a história de superação do bailarino chinês Li Cunxin
Adaptando uma emocionante história real, o filme ''O Último Dançarino de Mao'' - estreia de hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL - conta a história do bailarino chinês Li Cunxin (Chi Cao) que desafia, através da sua manifestação artística, o modo de vida da China comunista, durante a época do governo ditatorial de Mao Tsé-Tung.
No filme, acompanhamos o desenvolvimento de duas narrativas paralelas, que são apresentadas em um esquema de flashbacks. De um lado, acompanhamos o bailarino já adulto, que chega nos EUA, em 1981, para um intercâmbio ''supervisionado'' de três meses na Academia de Ballet de Houston. Com alguns cortes na linearidade do longa, acompanhamos, ao mesmo tempo, a série de acasos que levaram o jovem Li Cunxin (Wen Bin Huang) ao duro treinamento de ballet na China, até ele ser selecionado pelo renomado professor Ben Stevenson (Bruce Greenwood) para fazer uma visita à América.
Dentro dessa fórmula, enquanto somos apresentados ao fascínio do chinês pela cultura e riqueza americana (''fantástico'', ele exclama, olhando para os prédios de vidro), também conhecemos sua infância humilde e os ensinamentos do governo comunista, que exalta sua força através de uma ideologia autoritária e mentirosa. Pouco a pouco, Li Cunxin compreende que tudo o que lhe foi ensinado sobre o 'maldito e pobre' Estados Unidos estava fundamentalmente errado.
Esse tipo de estrutura - montada pelo diretor australiano Bruce Beresford em cima do roteiro de Jan Sardi (o mesmo de ''Shine: Brilhante'') - facilita a história, mas também atrapalha a subjetividade do espectador, que recebe tudo didaticamente mastigado; por exemplo, quase que simultaneamente aos ensinamentos de um professor chinês sobre as misérias que atingem os governos capitalistas, somos levados para uma cena onde Li Cunxin está com amigos americanos, bebendo Coca-Cola dentro de uma boate. Dessa maneira, o conflito de ideias fica imediatamente claro, e não existe espaço para uma reflexão sobre os verdadeiros sentimentos do personagem, que poderiam ser mais explorados.
O maior acerto do filme é que, apesar de fazer uma forte panfletagem sobre o ''American Way of Life'', ele não trata de uma crítica puramente política. O aspecto mais interessante do conflito de Li Cunxin é que ele é imensamente amplificado pelo exercício de sua arte: o protagonista se redescobre, como indivíduo, quando é aclamado em cima dos palcos. Em um dos momentos mais emocionantes do longa, observamos como o bailarino, em sua primeira grande apresentação, adquire um brilho diferente nos olhos - uma intensidade que transpõe as fronteiras e ensinamentos geopolíticos. Naquele instante, ele decide seu destino.
Em uma conversa íntima com sua namorada Liz (Penne-Hackfort Jones), o personagem admite: ''Eu aprendi a dançar em meu país, mas danço melhor aqui, porque me sinto mais...livre''. A busca por essa liberdade é a principal motivadora das ações de Li Cunxin. Infelizmente, a montagem da película algumas vezes não faz jus à extraordinária história real do protagonista, e isso quebra a narrativa com flashbacks desnecessários e opções de montagem redundantes. Querendo potencializar o drama com efeitos de fast ou slow motion, a edição acaba por esvaziar a carga emocional das cenas em cima dos palcos que, cruas, já são belíssimas.
A moral da história é ótima: sem liberdade, não existe paixão; sem paixão, não existe arte. É uma pena que ''O Último Dançarino de Mao'' fique tão preso a paradigmas do gênero 'drama biográfico', e que seu roteiro escolha saídas fáceis que acabam por enfraquecer, em alguns aspectos, uma extraordinária história de superação.
Rafael Ceribelli - Reportagem Local