Olho Mágico - Vol. 8 - Nº 2 mai./ago.2001
EM QUESTÃO

 

Novos currículos de Medicina na FAMEMA e na UEL:
uma construção permanente rumo à realidade presente e futura

João José Batista de Campos
Docente do Depto. de Saúde Coletiva da UEL
Vice-Coordenador do Colegiado do Curso de Medicina
jocampos@sercomtel.com.br

Ricardo Komatsu
Diretor de Graduação da Faculdade
de Medicina de Marília-SP
komatsu@mii.nutecnet.com.br

O Programa UNI (Uma Nova Iniciativa na Educação dos Profissionais de Saúde – União com a Comunidade), desenvolvido ao longo dos últimos dez anos, tem propiciado a reflexão crítica sobre as práticas desenvolvidas nos vários projetos que o compõe. O produto dessa reflexão tem servido como subsídio importante para o estabelecimento de novos objetivos, à reformulação de estratégias, melhor compreensão acerca dos elementos conceituais envolvidos na participação popular, na organização dos serviços e na formação de profissionais de saúde não apenas em Marília e Londrina, onde se desenvolve o Projeto UNI, mas no movimento de mudança da educação médica em curso no país.

Novos currículos de Medicina estão em processo de implantação desde 1997 na Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) e 1998 na Universidade Estadual de Londrina (UEL), com o propósito de contribuir para a formação de profissionais que atendam às necessidades de saúde presentes e futuras da população, sendo sensíveis à reorganização do sistema de saúde, e ao fortalecimento da participação popular na gestão da saúde. Tais programas foram planejados e vem sendo executados com o objetivo geral de implementar mudanças na formação dos profissionais de saúde, enfatizando a relevância social da Medicina e do médico, seu compromisso ético e seu fundamento humanístico.

A principal frente de atuação dos projetos político-pedagógicos dos cursos tem sido propor e concretizar mudanças profundas na estrutura universitária, em particular, no que se refere à área médica, o que tornou necessário o enfrentamento de muitos interesses corporativos, ideológicos e políticos. Por isso, fez-se necessário o desenvolvimento, pela gerência dos projetos,  de uma arquitetura organizacional que integra o planejamento estratégico, a execução, o acompanhamento, e a avaliação.

Os currículos são coordenados através de colegiados, com composição diversa na UEL e FAMEMA, que cumprem o papel de gestão na esfera técnica e também na esfera política.

O primeiro momento da implantação dos currículos foi marcado por três grandes desafios:

1º )  O desenvolvimento da capacidade de buscar e processar todos os novos conhecimentos necessários para trabalhar no sentido das mudanças pretendidas no terreno da formação profissional, da organização dos serviços e da participação popular. Muitos desses elementos conceituais estavam disponíveis na literatura, mas não eram parte do arsenal dos profissionais envolvidos no processo.


2º) Construir na prática a parceria entre sócios tão diferentes como a universidade, os serviços de saúde e a população. Foi necessário reconhecer as diferenças de pontos de vista, de linguagens, de dinâmicas, necessidades e problemas e chegar à elaboração de objetivos comuns, que possibilitassem a atuação articulada.


3º) Construir estratégias para acumular forças para chegar às mudanças necessárias. Apesar de corresponderem a aspirações das instituições, as propostas num primeiro momento, foram capazes de mobilizar um pequeno grupo de pessoas e de despertar oposições. Foi necessário conquistar o apoio e a participação ativa da maioria e neutralizar a oposição para trabalhar pelas mudanças.

Num segundo momento, foi preciso desenvolver uma intensa mobilização de contingentes significativos de pessoas. As estratégias definidas possibilitaram que, através da experimentação prática e do trabalho coletivo, muitas pessoas se envolvessem na análise crítica das práticas tradicionais e na construção de propostas de mudança.

Num terceiro momento foram necessários rearranjos e estratégias políticas para garantir a viabilidade da implantação das mudanças.

O quarto momento é o da implementação das mudanças, que impõe desafios constantes: rever periodicamente os objetivos e reconstruí-los a partir de novas demandas e desafios que surgem no processo; garantir adesão e participação ativa; adaptar as normas institucionais às novas necessidades surgidas a partir da mudança; buscar novos conhecimentos e aportes para dar conta dos novos problemas; manter a dinâmica da parceria apesar das grandes demandas internas de cada parceiro. Criou-se instâncias intermediárias de interação entre os três parceiros, para que possibilitassem maior participação direta nas definições estratégicas dos cursos. Foram também criados muitos espaços coletivos de discussão através de oficinas de trabalho para planejamento e avaliação dos processos.

A avaliação interna proposta pelos dos cursos tem focalizado principalmente os processos envolvidos em sua implementação. A sua base fundamental  tem sido a reflexão coletiva acerca dos trabalhos realizados. O programa UNI está financiando alguns estudos especiais, para medir o impacto do UNI na universidade, nos serviços de saúde e na participação popular. Os estudos sobre impacto na academia e na comunidade devem ser concluídos até o final de 2001.

Algumas atividades expressam a proporção do movimento retratado neste artigo :

a)       Designação do Centro de Ciências da Saúde da UEL como “Centro Colaborador da OMS em Educação e Práticas Médicas”;

b)       A intensa utilização dos recursos educacionais disponibilizados na FAMEMA e na UEL: bibliotecas, laboratórios de aprendizagem, computadores, etc.

c)       O envolvimento de docentes da FAMEMA e da UEL em programas de mestrado em educação para profissões de saúde (Universidade de Dundee - Escócia, Universidade de Illinois – Chigaco/EUA, Universidade de Maastricht - Holanda), e em programas de doutorado em Educação (UNESP, Universidade de Londres - Inglaterra);

d)       A expressiva participação da FAMEMA e da UEL nos últimos Congressos Brasileiros de Educação Médica, seja na apresentação de temas livres, posters, participações em conferências, cursos ou discussões, que culminou com a conquista do Prêmio Nacional da Associação Brasileira de Educação Médica em 1999 (nas categorias docente e discente) pela UEL, e em 2000 na categoria docente pela FAMEMA;

e)       Participação igualmente expressiva na FAMEMA e UEL nos Congressos Regionais de Educação Médica, com a conquista do prêmio pelo melhor poster do 2º Congresso Paulista de Educação Médica, em 2000, pela FAMEMA.

f)        Solicitação de assessorias e visitas de outras instituições do Brasil e de outros países para conhecimento das mudanças curriculares implantadas na UEL/CCS e na FAMEMA;

g) Escolha de Londrina para sediar a 12a. Reunião Internacional da “Network – Community Partnerships for Health through Innovative Education, Service and Research”, em outubro de 2001, além da realização em Londrina, no mesmo ano, de 2 outros eventos: XXXI Encontro Científico dos Estudantes de Medicina do Brasil, e IV Congresso Nacional de Rede UNIDA.
 

A expectativa mais importante a ser alcançada são as mudanças na formação de médicos na FAMEMA e na UEL. Algumas mudanças já foram atingidas  a característica dos currículos implantados na medicina e enfermagem, pioneiros na América Latina, organizados através de unidades ou módulos interdisciplinares  (não há mais disciplinas isoladas no currículo), utilizando metodologias ativas de ensino-aprendizagem e contando, ao longo de todos os anos, com uma unidade ou módulo anual de atuação multiprofissional e interdisciplinar na comunidade e nos serviços de saúde (em todos os níveis de complexidade). Essas mudanças  são reconhecidas nacionalmente.

Em relação às práticas anteriores, os projetos pedagógicos dos cursos enfrentam desafios tais como :

-          A construção curricular com base em relações muito mais democráticas entre serviços, academia e comunidade. Em experiências anteriores a academia tendia sempre a fazer prevalecer seus pontos de vista, ignorando necessidades e opiniões dos parceiros;

-          A criação de uma dinâmica mais horizontal de relação entre os parceiros, o que possibilita que muitos atores se tornem participantes ativos. Assim, os projetos permitem a construção de mudanças mais consistentes, com maior sustentação ao longo do tempo;

-          A ação articulada entre academia, serviços e comunidade, que possibilitam uma potencialização da ação das forças que atuam a favor das transformações curriculares, melhorias nos serviços de saúde e fortalecimento da própria comunidade. Ou seja, da maneira como está sendo construída a parceria, ela possibilita uma aliança estratégica entre as forças inovadoras existentes em cada um dos setores, o que é fundamental para viabilizar as mudanças e também para enfrentar as dificuldades e instabilidades políticas que afligem ora um ou outro parceiro;

-          A co-gestão que possibilita uma grande transferência de tecnologias e de saberes entre os parceiros, funcionando como um fator essencial na democratização das relações e no “empowerment” especialmente da comunidade, mas também dos profissionais dos serviços, e dos estudantes;

-          Pode-se dizer que a principal característica dos currículos inovadores de medicina deve ser tomar a realidade –presente e futura- como eixos articuladores do ensino-aprendizagem, da pesquisa, e da atenção à saúde, promovendo a formação não somente de profissionais conhecedores da realidade, mas sobretudo de cidadãos críticos, cônscios de sua importância social, e mais comprometidos com o gerenciamento dos problemas individuais de saúde de uma pessoa, e de toda a coletividade.

Como superar estes desafios e torná-los uma realidade presente e futura? Transformando, e transformando-nos... Transformar o currículo, implica em transformarmo-nos. Assim, em nossa opinião, a grande aposta deve ser na educação permanente e na capacitação docente. Eis um processo que, como o desenvolvimento curricular, deve iniciar-se, sem nunca findar...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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