Psicologia Geral e Análise do Comportamento

 

  

Tributo a César Ades
 

No momento em que resolvi escrever uma apresentação sobre César Ades, senti que teria um dever a cumprir: reconceitualizar ou ressignificar o que seja professor e o que seja amigo. Entretanto, adianto que esse dever repasso a todos, a todos que algum tempo ou alguma vez tiveram contato com César Ades. Mas não repassarei esse dever aos presentes sem antes alguma tentativa de o cumprir. E minha primeira tentativa é a de discordar quanto ao fato de César Ades ter sido chamado de professor. 

Ele, em função de seu empenho e da sua dedicação ao ensino e à pesquisa, em função de suas contribuições para a ciência psicológica e em função do tratamento carismático e apaixonado que dispensou ao objeto de estudo da psicologia, não podia ser rotulado como professor, não podia ser colocado como parte de uma categoria onde milhares de nós estamos ou fazemos número.

Todavia, talvez César fosse o professor; nós, apenas numerosos ostentadores de designação similar. Sei que não podemos abdicar da designação de professor,... mas talvez devamos tomar tal designação e a decompor até que ela se parecesse com os degraus de uma escada. E, numa atitude honesta e honrosa, talvez devamos descobrir em qual degrau dessa escada que se chama professor nós estamos. Talvez aí tenhamos uma perspectiva, ao olhar de baixo para cima, de o quanto é possível redimensionar o conceito "professor". 

Chamamos muitas pessoas de amigas. Em tempos de facebook e outros instrumentos que permitem interatividade social por meio de recursos eletrônicos, amigos de nós se dão às centenas. Eu ainda penso em amigo nos termos de significados anacrônicos. Não sei se isso é um defeito, porém amigo parece exigir algum tipo de materialidade interativa somado a alguma singularidade ou seletividade.

O tipo de amigo a que César se dava não podia ser definido nem por um extremo, nem por outro. Posso dizer que, nos termos de minha concepção, César foi o primeiro amigo tipo-facebook que tive. Por outro lado, tive o privilégio de o ter como amigo no sentido anacrônico anteriormente referido. 

Minhas interações com ele se deram de forma material e a qualidade delas foi muito além do mero dever de ofício. Contudo, a maioria das pessoas que tiveram contato com César se sentia amiga dele. Nesse sentido, ele era um amigo facebook. Era midiático e parecia também se sentir amigo de todos.

Longe da demagogia, César era dedicado ao seu interlocutor, tomava nota de tudo, e se empenhava para que o mundo presente, aquele presente da interação, fosse um tempo que usava como instrumento para eternizar o presente da interação. Talvez por isso todos o abandonavam após o encontro com a sensação de que haviam encontrado nele um amigo. Tanto assim que a maioria das pessoas se referiam à ele como "o César"; Professor César Ades ficava para as situações formais. 

Professor César Ades era um etólogo com cara de naturalista, mas que trabalhava em laboratório. Ele era um etólogo independente de ser psicólogo, mas a psicologia lhe deu um lugar para fazer o que gostava e, ainda por cima, lhe pagava por aquilo. Viveu sua vida profissional espremido entre os conceitos de estereotipia e plasticidade, entre instintivo e aprendido e declarava que não se nasce sabendo tudo, como também não se aprende tudo, mas se nasce sabendo o que aprender. Nunca declarou interesse por nenhum dos polos, mas protestou seu interesse pela vida e rechaçava  ideia de que houvesse justificativa especial para se estudar o comportamento, o comportamento de qualquer ser vivo. Ele estudou o comportamento de mais de 60 espécies. 

César era um entusiasta da ciência do comportamento animal. Ele partilhava admiração de pesquisadores importantes, mas às vezes deixava aqueles círculos para lá só para se sentar com os estudantes e conversar. César parava o que estava fazendo, ainda que aquilo parecesse bem importante, para discutir uma ideia, um projeto com você. César não se preocupava com títulos nem com autoridades; ele fez das ideias, fossem elas de quem fosse, o foco de sua atenção. A simplicidade tamanha com a qual o Professor César interagia com as pessoas era uma declaração absoluta de que arrogância jamais combina com competência. 

O interesse do Professor César Ades era o de explicar o comportamento, não importando se o comportamento de um outro animal fosse ou não similar ao nosso. Esse interesse sustentado resultou em notoriedade e em reconhecimento. Dois adjetivos aparentemente dispensáveis quando se olha a trajetória do Professor César. Uma trajetória recheada com informações - embora públicas - desconhecidas de muitos de seus amigos e conhecidos. 

César era de família judia radicada no Egito. Ele nasceu durante a II Guerra e veio para o Brasil quando tinha 15 anos, sem falar uma única palavra em português. Deixou o Egito quando o país se envolveu em uma guerra pelo domínio do Canal de Suez. Ele revelou que se ajustou tão bem ao Brasil que se considerou pré-brasileiro.

Decidiu por psicologia quando fazia filosofia como conclusão do 3º colegial no Liceu Pasteur. Iniciou a graduação em Psicologia quando o Departamento de Psicologia Experimantal funcionava nos porões do Palacete da Glette, que ficava na Alameda Glette, na Barrafunda. Graduou-se em 1965, tendo feito mestrado com a Professora Dora Fix Ventura e doutorado com o Professor Walter Hugo Cunha. Tudo na USP. Nos tempos de estudante, César era conhecido como o "Barbicha". 

Nascido em Alexandria, já abriu os olhos em um templo de sabedoria e num tempo de guerra. Alguns afirmam que ele nasceu no Cairo. Não importa. Importa que os primeiros ares que respirou  foram ares de conhecimento acumulado ao longo da vida. O último ar que exalou foi paulistano e deixou como herança todo esse conhecimento.

Prometi não rechear mais os meus textos com Fernando Pessoa. Mas quando penso no que escrevi sobre o Professor César Ades e no professor que sou, não resisti e lá vai a Tabacaria, de Pessoa:

 

Fiz de mim o que não soube  

E o que podia fazer de mim não o fiz.  

Conheceram-me logo por quem não era 

e não desmenti  

e perdi-me. 

Quando quis tirar a máscara  

Estava pegada à cara.  

Quando a tirei e me vi no espelho  

Já tinha envelhecido. 

  

E, para César Ades, a minha saudação absolutamente não original:

Ave César! Teus amigos te saudam.

 

Ari Bassi do Nascimento
Maio de 2012
 

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Texto de Ari Bassi do Nascimento, professor do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento da UEL, apresentado por ocasião da homenagem prestada ao professor César Ades em cerimônia especial de abertura do II Congresso de Psicologia e Análise do Comportamento, realizado em maio de 2012, na cidade de Londrina - PR.

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