O artista visual Benedito Ferreira é um dos selecionados pelo edital Arte Londrina 8 para a exposição Do corpo objeto ao animal político. Nesta entrevista que fizemos a ele, Benedito conta um pouco a respeito de seu trabalho Nenhum (2018), de suas referências, pensamentos, daquilo que busca investigar e também da rotina durante a pandemia.

 

Como o trabalho que foi selecionado foi desenvolvido?

Nenhum partiu de uma simples observação e foi filmado em poucas horas, antes da chegada da chuva. O material ficou guardado durante meses. Nesse meio tempo, estava estudando algumas coisas de Botânica, revisando aqueles conceitos que a gente aprende na época da escola. E então resolvi montar preservando os arquivos originais e propondo os intervalos em black.

 

Como ele se relaciona com sua produção de uma maneira geral? Que tipo de coisa chama sua atenção no mundo?

Minhas investigações artísticas estão centradas na potência da escrita da imagem, na poética dos arquivos e no artista como um apanhador de fragmentos do mundo. Uma das questões centrais é a dinâmica dos arquivos e o modo como eles podem ser trabalhados. Tenho interesse pelas formas pequenas, pelos retratos que requerem um olhar mais aproximado.

 

Que artistas ou teóricos você considera importantes? Por quê? O que você está lendo?

Neste período de quarentena, tenho revisado os textos do Artavazd Pelechian, cineasta armênio que possui uma obra curta, mas muito poderosa. Também tenho lido os poetas portugueses Adilia Lopes e Manuel de Freitas. Tenho pensado no Martin Parr e nas aulas que tive com a professora e filósofa Carla Damião na Universidade Federal de Goiás.

 

O que você está produzindo agora?

Estou trabalhando na finalização de dois projetos. Gostaria de terminar um para começar outro, mas isso é muito difícil. Um deles é um projeto grande, que se chama Despertáculo e envolve uma série de fotografias em dimensões variadas, imagens produzidas em sua maioria em Goiânia, que é de onde eu venho. No trabalho, estabeleço conexões com dois artistas goianos, Pio Vargas e Samuel Rosa, mortos precocemente.

 

Como está sendo sua rotina durante a pandemia?

Estou em autoisolamento social na casa dos meus pais que fica em Itapuranga, uma cidade no interior de Goiás. Quando tudo isso começou e vi que seria muito grave, eu havia acabado de me mudar para o Rio de Janeiro para cursar o doutorado em Artes na UERJ. Fiz apenas a primeira semana de aulas, aconteceu a suspensão das aulas e voltei para Goiás. Estou aqui em Itapuranga desde o começo e tentei estabelecer uma rotina, mas acabo trocando os horários e perco a noção do tempo. Então vou sentindo devagarinho os dias, sem me cobrar muito. Tem dias que fico sem notícias, outros que quero saber tudo o que está acontecendo. Alguns dias são mais melancólicos. Vou vivendo devagar, tentando aprender.

 

Que experiências com arte foram importantes para você?

Tenho uma lembrança muito boa de um curso que fiz com a Leda Catunda em São Paulo em 2010. Outra lembrança boa foi a primeira vez que vi o trabalho da Pipilotti Rist ao vivo em Berlim. Fiquei impressionado com a escala, a escolha dos materiais e o jeito como articula o som nos vídeos. Também me emociono sempre com a série O Decálogo que o Kieślowski produziu para a televisão polonesa no final dos anos 1980. Revi antes da quarentena, me emociono em todos os episódios. Gostaria de ter tomado uma cerveja com ele.

 

O que acha da ideia de que o arquivamento multiplica as chances de revisão e permite a descoberta de desvios de entendimento de um fato?

Os arquivos permitem novas associações e combinações, e isso me fascina. Arquivos e documentos também ficcionalizam, afinal confabulam interesses particulares. E o que chamamos de documental não pode ser visto atrelado apenas ao conceito de “verdade”, mas sim como uma forma de se relacionar com o mundo. De fato, o que tem me pegado é como os arquivos podem auxiliar na construção de um espectador-montador, aquele que é capaz de romper com narrativas totalizantes e propor um corte, ou seja, construir as imagens que estão por aí no mundo.

 

Pensando a borboleta que aparece em seu vídeo, em que medida ela reflete comportamentos humanos?

Curioso pensar aquele corpo frágil filmado em 2018 justamente agora na pandemia, que temos tantos anseios e que tudo está em suspensão. Esse enclausuramento da mariposa reflete questões do contemporâneo, desse corpo que não aguenta mais, lembrando as imagens de Beckett que o texto de David Lapoujade evoca. Uma fonte luminosa que acaba por confundi-la, uma luz artificial mais intensa que a da lua enquanto a mariposa necessita corrigir sua rota de voo para sobreviver. Quer dizer, a rota de voo é a garantia da sobrevivência. Isso me emociona, afinal nós também somos atravancados por agentes e fenômenos que parecem superiores, que nos ludibriam, que também nos obrigam a corrigir nossas rotas ou a construir paraquedas coloridos, como escreve o Ailton Krenak.

 

Benedito Ferreira. Nenhum. Vídeo / 6’45” / loop/ cor / som. 2018.

 

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