Bianca Turner reside e trabalha em São Paulo (SP) e também participa da quarta exposição do edital Arte Londrina 7, Tu não te moves de ti.

 

Seus trabalhos aqui expostos são “Uma” e “Cidade-Corpo“. Sobre Uma, Bianca diz: “Este vídeo busca evidenciar a masculinização das posições de poder. Desde a criação da República, só tivemos uma mulher na presidência. Todas as decisões tomadas que sustentam nossa vida cotidiana são deliberadas por homens ricos. Nossos corpos femininos continuam a mercê destas decisões.“. Já sobre o processo de “Cidade-Corpo“, a artista explica, “Andei de uma rua a outra, documentando em áudio essa caminhada. Durante o percurso, eu relembrei a história de cada um desses homens. A documentação da ação em vídeo e da caminhada em áudio são sobrepostas em vídeo instalação.“. 

 

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Pergunta difícil. Acho que as conversas mais inspiradoras que ouvi foram escutar outros artistas falando de seus processos criativos. Por isso, sempre que acompanho o trabalho de um artista e acontece alguma fala em abertura de exposição, palestra, sempre vou. Acho muito rico e inspirador o ‘estar em processo’, e é isso que me interessa como pessoa. Portanto ouvir a pesquisa e processo de um artista reflete a sua busca interna e por consequência me relembra de minha busca.

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Um trabalho começa por uma indagação, uma pergunta, uma investigação. Eu tenho aspectos muito detetivescos. E o processo de clarificar essa pergunta muitas vezes se torna uma ‘obra’.

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

O trabalho do Joseph Beuys é importante para mim pela forma como ele desterritorializa a arte. Acho essa proposição muito contemporânea. Como a arte ser encontro, energia, e acontecer por corpos e não por instituições.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Estou lendo ‘Memórias da plantação’, da Grada Kilomba.

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Sou fascinada por traços do passado. Construções antigas, templos, pirâmides, fábricas, prisões, ruínas em geral, que são evidências de que houve outros tempos; e revelam sua sabedoria e ignorância.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Estou num processo de pesquisa que está bem inicial, estou fazendo uma residência artística em Oslo, que chama Praksis Oslo, por um mês. A pesquisa começa em mapas antigos da colonização e se desdobra em indagações sobre o encontro.

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Ouço muita música independente brasileira e muita World Music.

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

Quando encontrei o trabalho do Bill Viola, um vídeo artista americano, encontrei o inicio de seu trabalho. Foi algo avassalador para mim, pois entendi como se podia tratar do invisível e de ritos de passagem através da arte. A partir disso, foi buscar minhas próprias raízes em Sarajevo, cidade de nascimento de minha avó, e fiz minhas primeira vídeo-instalação, em 2010, chamada ‘Saray’. No dia da abertura daquela exposição, lembro de chegar em casa, olhar pela janela e sentir que minha vida havia valido a pena, que a partir dali haveria um sentido. Me entendi por gente através de me entender como artista.

 

COMO VÊ O CONFLITO ENTRE A BUSCA DE UMA REPRESENTAÇÃO DA MULHER, E AS FIGURAS PÚBLICAS QUE EFETIVAMENTE NOS REPRESENTAM?

Acho que as figuras públicas femininas que nos representam estão mudando nos últimos anos. Lógico que a lógica do capital continua a colocar a mulher dentro dessa representação do belo, e do sexy, e desconstruir isso com mulher é uma busca constante. Mas com as redes sociais hoje em dia é possível também seguirmos as mulheres que nos referenciam, e nos fortalecemos coletivamente em busca dessa nova imagem.

 

EM QUE MEDIDA SEU TRABALHO PROPÕE UMA REVISÃO HISTÓRICA?

A essência do meu trabalho trata da minha indagação sobre o tempo. De como percebo o tempo-espaço de forma articulada, em forma de ‘rede’ e não de maneira linear. Algumas das minhas obras tratam de temas históricos Brasileiros como maneira de exemplificar a conexão de passado-presente-futuro. Mas o objetivo da obra não é fazer necessariamente uma revisão histórica, não há essa pretensão. Se isso se dá, é de uma maneira poética e não historiográfica.

 

 

 

Ateliê da artista

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