O artista Felipe Morelatto vive e trabalha em São Bernardo do Campo (sp) e respondeu algumas questões feitas pela DaP. Ele participa da 3ª exposição do ARTE LONDRINA 7, Precipitações, com os trabalhos Armadura, UncannyMaquina Número 2Prototype.

 

“Trabalho desenvolvendo trabalhos em pintura contemporânea, nos quais exploro uma materialidade
composta pela apropriação e reconfiguração de uma imagética colhida dos meios digitais.

Ao trazer essa seleção de imagens que fazem parte de meu dia a dia, que são, em seus contextos
originais desmaterializadas, para a pintura, que é estruturada por uma realidade tátil e complexa,
procuro criar situações transformadoras onde são potencializadas as qualidades estéticas e de
significados destes elementos, as que seriam ignoradas em outros contextos. Outra consequência
desse procedimentos é uma certa modificação da natureza da obra de arte que, de certa forma, passa
a carregar algumas pistas e qualidades dos contextos originais das suas partes constituintes. Encaro
essa característica como uma espécie de catalisador para o aprofundamento da relação entre vida e
arte, uma vez que todos trabalhos que tem essa carga semântica, revelam que cada vez mais, o
contexto está presente, não de maneira coadjuvante, mas sim, como ponto central de uma parte
significativa da produção artística atual. Sendo assim, entendo minha produção como um conjunto
que não está apenas preocupado apenas com o desenvolvimento de sua linguagem própria e a
criação de uma tautologia, ou seja, a prática de uma arte que se fundamenta apenas na sua própria
legitimação como tal, mas sim propõe outras visões de mundo e possibilidades de se relacionar de
maneiras novas e criativas com os contextos e os sistemas que nos cercam.”

– Felipe Morelatto.

 

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Gosto de conversar com os meus colegas de ateliê. Atualmente estou participando de uma residência artística coletiva do instituto de artes da Unesp. Acredito que quando se trabalha junto sempre rola uma conversa boa sobre os trabalhos, os processos criativos, bem como uma troca de experiências e  soluções para uma série de questões que ajudam a amadurecer os trabalhos.

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Um trabalho para mim é quase sempre o fruto de uma inquietação. Esse estímulo pode ter as mais diversas origens, uma idéia, uma questão trazida por um trabalho anterior, um posicionamento em relação ao seu meio ou até mesmo uma situação do cotidiano. Acho que o que difere o artista é que a reação a esses estímulos é traduzida em um ato criativo.

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Acho que boa parte da produção artística atual deve muito a influência de Marcel Duchamp. As obras e o posicionamento artístico inaugurado por ele ainda continua reverberando no mundo da arte. A sua postura pela defesa de uma arte “cerebral”, ou seja, uma produção mais intelectualizada e conceitual continua sendo uma espécie de norte, mesmo depois de quase um século.

Outros Artistas que considero muito importantes para mim são Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Gerhard Richter. Todas essas figuras aprofundam no campo da pintura um aspecto que acredito que é fundamental na minha pintura, que é o uso de imagens prontas nesse meio. Acho  que cada um dele desenvolve essa questão de uma maneira singular e muito interessante.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Tenho o costume de ler várias coisas ao mesmo tempo mas acabo sempre deixando uma parte do final dos livros para traz. Preciso terminar de ler o finalzinho dos livros a Cor na Arte de John Gage e  A Transfiguração Do Lugar Comum por Arthur Danto. Além disso acompanho o lançamento de alguns shounens.

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Gosto de arte, tecnologia, de cinema e entretenimento de maneira geral.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Continuo trabalhando nas minhas pinturas. Agora estou para começar uma série com telas em pequenos formatos, como uma experiência oposta aos meus trabalhos mais recentes. Acho legal variar um pouco a maneira como trabalho, tanto para não cair numa mesmice  e também para estar mais aberto alguma descoberta que possa vir a acontecer em um novo processo.

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Tenho ouvido mais música eletrônica e hip-hop. Se eu tivesse que indicar só um artista para alguém agora, com certeza eu escolheria o Flamingosis. Ele é um músico e produtor de Nova Jersey que vale muito a pena conhecer.

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

Acho que foi  todo o processo de colocar os trabalhos para fora do atelier. Apesar de ser uma caminhada muitas vezes burocrática e frustrante, tentar achar espaços para mostrar seu trabalho e pessoas que o valorizem é fundamental, muito mais do que a adoção de uma postura individual específica como artista.

 

QUE QUALIDADES (TÉCNICAS, INCLUSIVE) SUA PINTURA PRESERVA DAS IMAGENS DOS MEIOS DIGITAIS?

As minhas pinturas atuais tem a origem de suas composições em imagens prontas que coleto da internet. Acredito que a seleção que faço descreve uma espécie de itinerário possível por dentro desses meios, que é de certa forma registrada plásticamente nas obras.

Tecnicamente falando, é possível identificar nas paletas de cor, na repetição e nos recortes  dessas imagens uma série de elementos que apontam para o processo de edição de imagens utilizado nas mesmas. O tipo de estrutura que realizo, que é construído a partir de um desmembramento e rearranjo deste material é muito particular do trabalho digital. Acredito que realizar esse tipo de composição seria um processo extremamente laborioso beirando o impossível se o mesmo fosse realizado apenas por meio de técnicas recursos tradicionais.

 

LUZES ARTIFICIAIS, CORES DE UM UNIVERSO POP, DE ONDE SUAS IMAGENS VÊM?

Acredito que todos os artistas sem trabalham com elementos que os afetam de uma forma ou de outra, e as imagens que trabalho não são exceção a essa regra. Busco coletar elementos que me interessem e que façam parte de meu cotidiano e do meu repertório, adequando essas escolhas tendo em vista suas qualidades formais.  Trabalhos com esses elementos de uma forma não alegórica, pensando mais nas sua qualidade como elementos que irão fazer parte da pintura, mais do que a construção de um recorte semântico duro ou uma narrativa fixa para a obra e minha produção como um todo.

 

Local de trabalho do artista Felipe Morelatto

 

 

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