Caio Pacela, que reside em Niterói (RJ), participa da exposição EMPRESTA-ME UM DE SEUS DIAS com as obras Exercício para se procurar a liberdade em um outro território #2; O outro nunca se apresenta de frente; Retorno; Pecado estrutural; Primeira pessoa; Não temos ideia, mas suspeitamos; Sem título; Davi não sabe onde está Golias. Ele respondeu algumas perguntas ao site da DaP:

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Com amigos artistas (tanto os que cultivo desde da época de estudos na universidade quanto os que foram aparecendo durante a caminhada) e alguns poucos familiares. 

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Não entendo que em minha experiência haja somente um caminho no qual a arte se permita encontrar. E embora faça uso de diversos dispositivos já muito comuns por meus pares como pesquisas on line, fotografias de família, etc., o pensamento pode (e deve) ser contaminado por qualquer agente externo e vir a acontecer sem o uso das ferramentas de uso cotidiano. 

Inclusive acredito que para o processo não ter um desgaste decorrido de uma pesquisa maçante e repetitiva, há de se estar à procura e perceber-se num estado de espírito onde a mente esteja aberta e alerta. O cuidado mais importante a se tomar, porém, é, durante a submersão no ambiente das ideias, cuidar de não permitir a cauterização do pensamento fazendo do processo artístico uma espécie de emprego formal (no sentido do trabalho remunerado, legalizado, etc. onde existam relações hierárquicas movidas por processos burocráticos) 

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Tunga pela sua incrível capacidade de exalar poesia em sua obra e a transparência e leveza ao falar dela; Lucian Freud por saber fazer de maneira ímpar o uso do silêncio para falar sobre e desfragmentar a natureza humana. Também admiro muito Gerhard Richter. 

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

A Sociedade do Cansaço – Byung Chul-Han, Globalização Imaginada – Néstor García Canclini, Pintura e Realidade – Zalinda Catarxo, A Bíblia Sagrada 

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

As pessoas e os frutos da volatilidade, inconstância, instabilidade e impermanência que há nas pessoas.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Acredito estar no início de um processo de mudança radical no meu trabalho e não sei dizer ao certo o que está acontecendo nem mesmo no que vai resultar ou pra onde vou com isso. Difícil descrever. 

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Vou citar alguns dos artistas e bandas que sempre ouço sem nenhuma ordem pré-estabelecida: Racionais Mc’s, Dire Straits, Mahmundi, Djavan, Jamie Cullum, Selah Sue, Incógnito, Eagles, Tenacious D, Bastille, Dave Matthews, AC/DC, Cássia Eller, Planet Hemp, Rihanna, Ed Motta, Leonardo Gonçalves, John Mayer, Hillsong United e Phill Collins. 

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

Minha primeira experiência lúcida (embora tenha notícias de que eu desenhe desde sempre) foi na década de 90 (talvez por volta de 1995/96) quando um primo um pouco mais velho que eu, muito querido, que morava distante e sempre nos visitava começou a desenhar durante nossos momentos juntos e me fascinava a sua capacidade de representar o mundo com materiais e gestos muito simples e certeiros. Logo pus-me a tentar fazer o mesmo observando e percebendo as coisas e pessoas ao meu redor de forma diferente. 

 

QUAL A RELAÇÃO QUE ESTABELECE ENTRE DESENHOS E PINTURAS DE PESSOAS EM AÇÕES SEM SENTIDO E UMA CRÍTICA CONTRA A TIRANIA?

Em imagens nas quais pessoas comuns se colocam a realizar gestos supostamente inúteis e no ato de me empenhar a representá-las através dos meios citados na pergunta celebro a força e a irreverência contidas no ócio. O ato de procurar (ou até exigir, como já me ocorrera) sentido nos gestos ali expostos pode revelar um julgamento precipitado e um olhar viciado e induzido por forças distintas dissolvidas num pensamento corporativista onde não há espaço para o fazer sem que a prestação de contas sobre a geração de valor não esteja envolvida, onde não há possível descanso que não preceda e suceda a associação das ideias de ‘trabalho’ e ‘lucro’. Há também ali o desejo do indivíduo de se perceber envolvido em um momento de criação espontânea como num desvio de um script onde suas ações são pré-determinadas e na função de cumprir um papel de resolução de problemas (e que não necessariamente lhe interessem). 

 

ACHA QUE A AÇÃO ARTÍSTICA TEM ESTE CARACTER?

Sim, sem dúvidas. O sociólogo polonês Zygmund Bauman diz em seu livro “O mal estar da pós-modernidade” que “A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto” e isso vem muito a calhar num momento como o que presenciamos onde as relações de trabalho se intensificam ferozmente e invadem o ambiente íntimo e privado através das novas possibilidades de comunicação e de acesso à informação. A ação artística, na contramão dessa construção desordenada, procura privilegiar atos que abram clareiras nesse território e exponham à luz a nudez da condição humana e as entranhas das reais necessidades do indivíduo. 

 

JÁ FEZ DE SUAS PINTURAS UM ROTEIRO PARA AÇÕES SUAS? COMO FOI?

Referindo-me ao pensamento contido em meu trabalho provavelmente sim, mas certamente não foi nada premeditado e não me ocorre agora um bom exemplo para citar. 

 

Ateliê do artista Caio Pacela

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