A artista Mônica Coster vive e trabalha no Rio de Janeiro (RJ). Ela participa da 2ª exposição do ARTE LONDRINA 7,
EMPRESTA-ME UM DE SEUS DIAS com o trabalho Como atravessar uma montanha e respondeu algumas perguntas ao site da DaP:

 

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Converso principalmente com amig@s. Falamos muito sobre estratégias de montagem e produção dos trabalhos e isso acaba virando uma conversa conceitual. É curioso como, depois de um tempo conversando sobre trabalhos com determinada pessoa, os trabalhos começam a se afinar. Não no sentido de se tornarem parecidos, mas o modo de pensar da outra pessoa começa a fazer sentido e passa a ser interessante pensar um pouco como ela. É interessante descobrir o mundo íntimo dos trabalhos de amig@s e também deixar com que el@s pensem um pouco como eu.

Mas, conversar com qualquer pessoa me interessa. Não gosto de falar pontualmente sobre trabalhos com pessoas que não sou próxima, mas é legal como qualquer assunto é capaz de disparar um pensamento que pode desembocar em um trabalho. Às vezes as pessoas falam frases incríveis no meio de uma conversa banal, que ficam marcadas na memória; ou usam palavras ligeiramente descontextualizadas de suas frases e isso leva a fala toda da pessoa pra um lugar deslocado e bizarro. Uma vez eu estava em uma festa e uma pessoa disse aos convidados que eles deveriam falar mais abobrinhas, porque os assuntos estavam muito importantes. Na hora, achei essa colocação inapropriada, mas depois essa frase retornou para mim em muitas situações, com outros sentidos interessantes. Gosto de perceber como as pessoas falam, que palavras utilizam. Às vezes em uma conversa, uma palavra nos foge e não conseguimos terminar o raciocínio; ou usamos uma outra palavra que não substitui perfeitamente a palavra original e aí ficamos com uma sensação de ausência, como se estivéssemos no vácuo da palavra. Essa coisas são gostosas em uma conversa.

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Não sei exatamente como um trabalho começa. Acho que tem vários tipos de trabalhos e começos de trabalhos. Essa pergunta me interessa porque gosto muito de trabalhar no ateliê, que no meu caso é uma mesa e uma estante na sala do meu apartamento. Tenho uma relação muito afetiva com o ateliê de escultura, onde eu trabalhava na graduação e por isso muitos trabalhos surgem da vivência dentro do ateliê.

Geralmente, vou pro ateliê sem ideias definidas, fico mexendo nos materiais e dessa prática surgem trabalhos. Exercícios que podem gerar trabalhos. Gosto de pensar que as minhas mãos pensam também. Então mexer nas coisas de maneira geral é um bom começo para mim – também gosto de consertar coisas quebradas na casa. Desse contato despretensioso com os materiais podem surgir coisas afinadas com algum pensamento ou algo que eu vi anteriormente ou mesmo depois. Os trabalhos que começam dessa forma são os mais misteriosos pra mim e às vezes só fazem sentido depois de certo tempo convivendo com eles – indo ao banheiro com eles ou almoçando com eles. É curioso quando faço alguma coisa (alguma conformação material) que a principio ainda não sei do que se trata, e depois passo por alguma situação que faz com que aquele objeto que já existia ganhe sentido. Isso é legal porque faz com que os trabalhos tenham certa autonomia em relação a mim.

Gosto de pensar que os materiais pensam também. Para mim isso é uma posição política importante pois vai na contramão de um comportamento encerrado no método pensar-fazer, e vai para um fazer-pensar. A matéria como potência pensante faz com que a presença dos nossos corpos produza sentido por si mesma. A meu ver, essa simples operação é muito transformadora.

Outras vezes tenho ideias de trabalhos conversando com pessoas ou quando vejo alguma coisa na rua, por exemplo. Esses dias vi um balanço de madeira meio quebrado e fiquei com vontade de reproduzir essa cena. Já o vídeo do túnel, por exemplo, surgiu de uma lembrança de infância, quando eu costumava fazer pedidos ao cruzar os túneis, sempre prendendo a respiração para que o desejo se realizasse. Mas lembrei disso quando estava atravessando um túnel na cidade e só depois que veio a ideia do vídeo. Também tem trabalhos que são destinados a pessoas específicas, como presentes, declarações, segredos, confissões. Esses se camuflam, porque ninguém sabe quais são, só eu. Mas, de modo geral, tenho a sensação de que o trabalho sempre acontece dentro do ateliê, sendo esse lugar um espaço físico ou não. Entro no espaço-ateliê sem perceber e então me dou conta de que estava fora dele. O espaço-ateliê é um lugar onde as coisas se fundem. É dentro dele que as coisas acontecem.

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Essa pergunta é muito difícil. Confesso que passei dias pensando sobre ela sem saber o que responder. Tenho amig@s que são artistas incríveis e produzir ao lado del@s me alimenta bastante. Em relação à referências, posso citar artistas cujo trabalho me impressiona, como o da Lygia Pape ou Tunga. Uma vez vi uma instalação da Cinthia Marcelle no antigo Hospital Matarazzo abandonado. Era uma ala inteira do hospital fechada e o público entrava individualmente em um corredor vazio. O trabalho era uma caminhada individual  até o final do corredor escuro, e era possível ver os espaços abandonados de ambos os lados, mas sem poder entrar nas salas. Nesse corredor central, o pó fora limpado para que o público andasse pelo chão limpo e via-se a quantidade de poeira que havia ali nas salas ao lado. Não sei exatamente porque esse trabalho me marcou, ficou na minha memória. Agora, no mestrado, tenho estudado o trabalho da Celeida Tostes e do artista espanhol Pere Noguera.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Agora mesmo, estou lendo Crime e Castigo do Dostoiévski. Gostaria de reproduzir uma frase que li essa semana: “A mentira é uma coisa simpática porque conduz à verdade”. Gostei disso porque minto bastante.

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Coisas estranhas que fogem às normas e convenções me interessam. Como por exemplo alguém soltando uma gargalhada histriônica em um ambiente sério. Ou quando vamos a algum lugar que fazia tempo que não íamos e percebemos que há um edifício novo que não conhecíamos, ou que uma casa antiga fora demolida. Esse tipo de coisa me atrai. Me chama atenção quando alguém (ou eu mesma) fala algo inadequado ou que soa fora de contexto. Parecem desvios no caminho da fala, mas desvios intrínsecos a ela. Me chama atenção quando uma coisa que estava pendurada há muito tempo cai no chão; ou mesmo quando um copo desliza da mão e quebra. Uma vez uma pessoa me disse que deveríamos marcar o dia e a hora em que as coisas caem no chão, porque são momentos especiais, porque são os objetos falando.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Tenho feito objetos de argila, cerâmica e madeira. Muitos trabalhos vêm sendo realizados ao mesmo tempo ultimamente. O trabalho ao qual mais me dedico agora se chama Panças. As panças são recipientes redondos de barro cru, completamente fechados, que guardam pedaços de alimentos em decomposição. Há panças com ovos, com queijo, batatas, figo, abacate etc. Como a argila é porosa quando seca, sente-se o cheiro da comida podre ao se aproximar do recipiente. Tenho pensado que as panças são como estômagos fora do meu corpo. Também estou trabalhando na Caixa da abstinência: uma grande caixa de madeira muito mal feita – sua vontade é ser mal-feita. Assim, produzo com o maior esmero possível a caixa mais mal-feita que se possa imaginar. Outro trabalho chama-se Sala, que é uma mesa quadrada de madeira com três copos, fazendo referência à última cena do filme Stalker, do Tarkovski: um dos copos fica colado na beirada da mesa, como se estivesse a ponto de cair; o outro, que contém casca de ovo, poeira e lixo, fica em cima da mesa; e o terceiro, com chá pela metade, fica no chão. A Sala é uma configuração espacial com esses objetos. Esses são os trabalhos com mais definição no momento.

Paralelamente aos trabalhos práticos, também tenho escrito um texto livre em processo chamado O domínio do p. Um texto em constante transformação, que descreve a minha vivência por um território que chamo de domínio. O domínio se caracteriza geograficamente como um terreno anelar e oval que, com o passar do tempo, torna-se amorfo e mutável. Ele é um local povoado de objetos estranhos e distorcidos, como um relógio com os números trocados, recipientes de barro cru com comidas em decomposição, uma caixa absolutamente mal-feita, um dente do siso que não cessa de doer, entre outros. Todos esse objetos que povoam o domínio e são descritos no texto são trabalhos meus, já realizados eu não, que aparecem como personagens do domínio.

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Quando era mais nova eu escutava The Stooges e The Cramps o dia todo. Depois fui parando de escutar música. Quando eu morava com meu pai, escutava muito samba e mpb. Lembro de um mês que ele estava aprendendo a tocar Berimbau do Baden Powell, no violão e escutávamos essa música todos os dias, três ou quatro vezes por dia. Tenho uma relação um pouco limitada com música porque os sons me atordoam, por algum motivo que desconheço. Então me relaciono mais com a música da cidade, ou o que estão escutando ao meu redor. O que não deixa de ser uma relação íntima. Às vezes alguém passa ouvindo música no corredor, atrás da porta do meu quarto. Há uma pessoa que vive no apartamento e que escuta música de manhã e às vezes eu acordo cedo com o barulho, geralmente rap e funk. Às vezes fanfarras ou bandinhas de rua passam pela praça de madrugada tocando marchinhas ou samba. Às vezes acordamos as 5h da manhã. Também escuto uma festa de música eletrônica de madrugada, alguns sábados por mês. Amig@s sempre me mandam links de músicas que escuto, mas nunca lembro os nomes.

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

Quando estava no colégio, com 16 anos em São Paulo fiz um curso temático de seis meses com um professor de artes incrível, artista e curador, que dava aula de teoria de arte contemporânea, mas também com experimentações práticas. Para o trabalho final da disciplina, pendurei uma foto da minha boca aberta ensanguentada exibindo a costura de uma recente extração do Siso, na sala dos professores. Naquele mesmo dia, por coincidência, uma criança de machucou na escola: a trave do gol da quadra caiu sobre sua boca e ela quebrou vários dentes da boca. Gosto de narrar essa história porque tive a primeira experiência de fazer um trabalho e foi uma experiência um pouco “sobrenatural”, como se ele tivesse sido o causador do acidente.

Esse curso foi o meu primeiro contato com arte contemporânea. Lembro que em algumas aulas, que eram de 4 horas, o professor saía por 1 hora da sala e falava que tínhamos esse tempo para fazer um trabalho. E a gente revirava a sala de artes de cabeça pra baixo e empilhava tudo. Isso era revolucionário pra mim na época, porque eu me sentia muito bem fazendo esses “trabalhos-relâmpagos” e até hoje gosto dessa sensação de ter que resolver um trabalho em 1 horas. Essas aulas práticas propunham uma dinâmica muito próxima do laboratório de Composição em tempo real, outra experiência que tive, já na graduação. A Composição é uma técnica criada pelo artista e coreógrafo português João Fiadeiro, que conheci através de um workshop ministrado pelo artista Pablo Lobato no MAR. É um laboratório em que tudo é acontecimento e tudo se dá na relação no espaço e tempo real: cria-se relações entre objetos, corpos e espaços a partir do que o objeto/corpo pede (foi isso que ficou marcado para mim).

 

AO SUGERIR UM MÉTODO PARA ATRAVESSAR MONTANHAS, QUE TIPO DE EXPERIÊNCIA ESPERA QUE TENHAMOS OU QUE RECUPEREMOS?

É curioso você colocar a travessia como um método. Um ano depois de realizar esse trabalho, eu atravessei um túnel abandonado de 1km a pé no breu total, em Minas Gerais. Só eu e um amigo, com uma lanterninha. Fomos filmar o interior do túnel para um trabalho dele e eu fui de assistente, mas não se via nada, nem a luz no fim porque o túnel fazia uma curva. Foi uma experiência assustadora e acho que mudou o funcionamento do meu pensamento em alguns sentidos.

Esses dias um professor disse assim “É bom atravessar!”, se referindo à travessia de balsa Rio-Niterói. Gosto de pensar a travessia como um método, mas talvez um método invertido. Porque a travessia se coloca muitas vezes como inevitável – o túnel se impõe para a circulação. Então não se atravessa para que se chegue em algum lugar, necessariamente. Mas se chega na travessia.

 

TE INTERESSA QUE OPEREMOS FORA DE RIGORES LÓGICOS?

Uma vez eu estava andando com uma amigo na rua e ele levava uma grande folha de papel Paraná enrolada, formando um tubo. Em determinado momento ele disse: “Tive uma vontade impulsiva de enfiar esse tubo na cabeça dessa pessoa” – referindo-se a uma pessoa que passara ao lado dele na rua. Nunca mais esqueci isso disso, porque foi dito como uma confissão, com certa violência, admitindo uma vontade obscena. A lógica é sempre muito chata e evitar o ilógico não corresponde ao que sinto. Mas brigo constantemente contra o pensamento causal porque ele me persegue, ou eu o persigo e me embrenho nele de certa forma. Digamos que talvez eu goste de contrariar a lógica e não necessariamente operar fora dela. Então ela tem certa importância para mim.

 

COMO ENTENDE A PARTICIPAÇÃO DOS ESPAÇOS NO SEU TRABALHO? PARECE QUE UMA BRECHA, NAS EXPERIÊNCIAS PREDETERMINADAS, SEMPRE TE INTERESSA.

São muitos espaços e a brecha pode ser também um espaço. Talvez o único espaço seja a brecha, já que nessa lógica, todo o resto está preenchido até que algo se abra. Mas não sei o pensamento de brechas me interessa tanto agora. Durante algum tempo eu pensei no meu trabalho sob essa ótica, principalmente quando entrei na faculdade. Agora começo a achar que as “brechas” são parte do relevo, ou do que está presente. Não sei se os acidentes são rupturas ou se são inerentes ao campo. Acho que se manifestam de diversos modos, mas agora tendo a vê-los como parte do campo. Então, acho que busco acidentes do espaço, mas gosto de operar na lógica deles. Porque me parece que os espaços mesmos se traem e são também inerentemente avessos às suas próprias lógicas.

 

Ateliê da artista

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