O artista londrinense Gabriel Bonfim participa da exposição Empresta-me um de seus dias com a obra Espaço para gerar espaço. Nesta entrevista, ele conversou com a DaP a respeito do que o afeta, de suas influências, de suas caminhadas pela cidade e de como tudo isso atua sobre seu trabalho:

 

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Gosto de pensar que converso com o mundo de certa forma, considero todas as trocas importantes, ainda mais na minha produção que dialoga com a cidade e a vida cotidiana. Me interesso por coisas que ouço nos ônibus, nas ruas, em filmes e etc. Mas as melhores conversas são sempre com meus amigos do período da graduação, lembro das minhas aulas na UEL com muito amor e carinho.

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Sempre com um desconforto…

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Paola Berenstein Jacques, mulher, brasileira, arquiteta, urbanista e docente. Minha produção se relaciona diretamente com as obras de Paola. Livros como “Estética da ginga”, “Maré, vida nas favelas”, “Apologia da deriva” e “Elogio aos errantes” apareceram para mim durante a graduação de forma espontânea, e aos poucos toda a sua bibliografia foi me parecendo interessante. Ela trata de questões da cidade de forma clara e direta; escreve sobre a experiência urbana e, em particular, a experiência corporal da cidade, observa o morro como lugar de potência e criação da mesma forma que Hélio Oiticica fez e que eu busco fazer. Paola também levanta e explicita conceitos que são muito caros à minha produção, como a errância e a deriva. Possuo um carinho muito grande pela produção de artistas e grupos como: 3NÓS3, Barrio, Lygia Clark, Lygia Pape, Helio Oiticica, Bill Luhmann, Maria Helena Bernardes e outros… minha aproximação com esses artistas se explica pela maneira que eles trabalhavam com o corpo e a cidade.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Adquiri um Kindle recentemente e isso aumentou o meu ritmo de leitura, já que agora é tudo mais prático com os ebooks. No momento estou relendo “Elogio aos errantes” da Paola Berenstein Jacques e lendo “Mover-se” da Michelle Sommer. Na última semana li “Paulicéia desvairada” primeiro livro modernista de Mário de Andrade e li também “Onde um bicho cabe” livro curto de ficção e filosofia e mais algumas coisas do Nuno Ramos.

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Prédios, olhares, lixo, profano, individual, estatuas, fachadas, trânsito, happening, corpo, transporte público, falha, viadutos, formas, calçada, poder, informações, calor, coletivo, tapumes, ocupação, tensão, meio, códigos, pele, cimento, dor, postes, trocas, diferenças, padrão, cores, culpa, asfalto, espera, amor, sexo, bagunça, memória, sons, ruídos, desculpa, arquitetura, tempo, fluxo, sombras, terra, caminhadas, placas, pontes, caixa de correio, ar, chuva, desejo, museus, cinemas e coisas culturais, praças, bueiros, parapeitos, arte, perigo, ação, conversas, pessoas, margem, grades, acontecimentos, organização, performance, meios de comunicação, comércio, monumentos, notícia, política.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Uma série de errâncias e anotações, envolvendo mapas e caminhadas aleatórias. Tenho pensado muito nos últimos tempos… Temos vivido tempos de arbítrio, me questiono todos os dias qual o meu papel nisso tudo, como ser humano, como brasileiro, como artista, como gay, como pobre… Os tempos estão difíceis, mas não podemos parar né? Isso ainda vai nos levar a algum lugar! Mas voltando para a pergunta: eu tenho produzido caminhadas!

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Além de professor – pesquisador – artista (e vendedor no shopping), eu também sou DJ, e isso é algo muito bacana! Bacana por vários motivos, um deles é poder presenciar a vida noturna da cidade, estar em todos os rolês, não pagar para entrar nas festas e ainda receber por isso! Gosto de tocar também pois isso amplia meu gosto musical, já que não estou tocando só para mim, mas sim para algumas centenas de pessoas, existe ai uma preocupação com o tema da festa e com o público, sempre penso determinado set para determinada festa. Já eu possuo um gosto musical muito eclético, indo de Novos Baianos a Sophie passando por Rosalía e Bjork. Ultimamente tenho prestado muita atenção no cenário nacional, muita coisa boa vem sendo produzida, recomendo artistas como: Jaloo, Duda Beat, Mc Tha e Jup do Bairro. Aliás, vocês já ouviram o álbum da Mc Tha?

https://www.youtube.com/watch?v=LE43Bb3xXGw&list=PLYnGU9fvHdbSzh-tCulPzNYZaz_91a-zb&index=2&t=0s

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

Passei por inúmeras experiências incríveis nos últimos anos, algumas no meu bairro e outras durante viagens acadêmicas. Mas acredito que um dos momentos mais importantes para mim foi durante o ano passado, realizei uma viagem para a 33 bienal de São Paulo e pratiquei algumas caminhadas pela cidade, numa delas na Avenida Paulista acabei realizando uma versão do meu trabalho “Espaço para gerar espaço” no Buracão da Paulista, somente em Londrina me dei conta de que o grupo 3nós3 havia realizado o trabalho Interversão VI (1980) no mesmo ponto da Av. Paulista. Amo saber que, de alguma forma, ocupamos, em épocas distintas, o mesmo lugar.

 

VOCÊ ENTENDE QUE AS OBRAS DE ARTE, NA HISTÓRIA DA ARTE, SÃO COMO UM TERRITÓRIO RELATIVAMENTE DEMOCRÁTICO, ONDE VOCÊ DESCOBRE E USA POTÊNCIAS QUE PODEM SER EMPRESTADAS? COMO ISSO FUNCIONA PARA VOCÊ?

Entendo que faz parte da minha responsabilidade como artista contemporâneo brasileiro não ignorar tudo o que já foi feito, olho para o passado com respeito e carinho, gosto de saber entender quem fez, como fez e porque fez. Isso me ajuda a entender como faço e porque faço.

Quando penso no início da minha trajetória como artista, penso naqueles que vieram antes de mim e como a existência deles foi e é essencial para a minha. Sinto-me extremamente afetado pela produção de alguns artistas, vejo-os como uma espécie de família. As tintas que usavam, os grafites, os papéis, as linhas, as imagens, os vídeos, as vozes, as secreções, os movimentos, as ideias, as estranhezas, tudo isso faz parte do meu DNA e forma quem eu sou.

Se meu corpo fosse uma casa, esses artistas/trabalhos/experiências seriam as minhas estruturas. E se todos eles não existissem, se todos eles não tivessem feito o que fizeram, se todos eles não sofressem por serem quem eram e fazerem o que faziam, então eu talvez não existiria como existo.

Hoje olho para a cidade da maneira como olho porque já olharam antes. Hoje enxergo as ruas, calçadas e todo o espaço urbano como espaço para criação e intervenção (ou interversão) porque já fizeram isso muitas vezes. O meu começo foi neles e em outros, eles começaram para mim. Eu só continuo.

 

 SE PUDESSE FAZER O QUE QUISESSE, O QUE FARIA?

Vou me censurar um pouco nessa pergunta, sinto que se eu respondesse o que eu realmente faria poderia perder meu réu primário. Mas vamos lá, eu sonho com um país mais justo, sem desigualdade social, sem ninguém passando fome. Se um dia eu, ou meu trabalho, contribuir de alguma forma para mudar a realidade social do país, para fazer as pessoas se reconhecerem nas ruas, como iguais, como humanos, como seres de potência… isso me faria muito feliz. Sinto que isso não se relaciona diretamente com a pergunta, mas, meu sonho de vida é ser Ministro da Cultura um dia, queria deixar isso registrado aqui.

 

quarto-ateliê do artista gabriel bonfim

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