Neiliane Araújo nasceu em Brasília – DF e, hoje, vive e trabalha em São Paulo – SP. Nesta entrevista feita por nós, da DaP, ela respondeu algumas perguntas que tratam de seus interesses, de seu processo criativo e também dos trabalhos da série Gráficos, exposta atualmente na Divisão de Artes Plásticas: paciência X tempo; tempo X distância; amor X pessoas; mulher X igreja e abandono X comunicação.

 

COM QUEM TEM AS MELHORES CONVERSAS SOBRE O QUE TE INTERESSA COMO ARTISTA?

Com outros artistas; com algumas poucas pessoas da minha família (que não são artistas) e com o público quando mostro meu trabalho.

 

COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Geralmente começa a partir do momento em que um assunto está muito presente na minha existência, na minha rotina, nos lugares por onde ando, nas relações que tenho com as pessoas. Isso tudo levando em consideração o contexto político ao meu redor, agora mais do que antes. E quase sempre começa com anotações escritas em cadernos e desenhos à lápis ou nanquim. Já houve um trabalho que surgiu a partir de uma música que ouvi.

 

QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Os construtivistas, os neoconcretos, os artistas da arte povera.

Lygia Pape, Hélio OiticicaLászló Moholy-NagyKurt Schwitters, Cy Twombly, Waltércio Caldas, Agnes Martin, Mira Schendel, Leonílson.

Estes são alguns dos artistas que considero importantes e inspiradores pelas atitudes assertivas e libertadoras que tiveram, de uma maneira geral. A Arte Povera, que estou voltando a pesquisar, após ter feito uma aula como aluna especial da pós-graduação no Instituto de Artes da UNESP em São Paulo SP com o Prof Dr. Agnus Valente, me chama a atenção pelos materiais mais frágeis ou não convencionais que seus artistas utilizaram e o resultado, os que gosto mais, são obras críticas e com senso de humor ao mesmo tempo. Eu gosto de trabalhos que aproximam a arte da vida cotidiana e quando isso se revela por meio dos materiais utilizados. Tenho sempre uma conversa paralela com os neoconcretos pois, gosto muito do modo como o pensamento desses artistas foi desenvolvido, toda a produção intelectual apresentada para a nossa história e pelas soluções visuais, em especial as obras de Lygia Pape e os Metaesquemas os Relevos Espaciais, de Hélio Oiticica.

Zygmunt Bauman é um sociólogo e filósofo do qual tenho me aproximado após ter tomado conhecimento do tema maior da sua obra que trata sobre a liquidez dos relacionamentos e a sociedade que vive em um mundo virtual.

Tive acesso recentemente, por indicação de uma amiga artista, ao livro “Gesto Inacabado: processo de criação artística”, de Cecilia Almeida Salles, que está sendo muito bem-vinda pra me ajudar dentro desse processo.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Acabei de ler “Desobediência Civil”, de H. D. Thoureau e iniciei “Interseccionalidade” – Coleção Feminismos Plurais, com coordenação de Djamila Ribeiro. Também estou lendo “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos”, de Zygmunt Bauman.

 

QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

A forma e o formato de todas as coisas, dos objetos, da natureza, dos alimentos etc e as fases da lua, pois tenho observado cada vez mais os ciclos da vida – fechamentos e inícios. A maneira com que cada pessoa lida com as adversidades da vida também me chama muito a atenção.

 

O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Continuo experimentando papéis de variadas gramaturas e tamanhos, assim como papéis gráficos e que já contém informações impressas pois, sempre me senti acolhida por qualquer papel à minha frente para desenhar. Além disso, percebi que a minha necessidade de aproveitar e reaproveitar materiais, reciclar e transformar tem guiado a minha produção. Desde o ano passado (2018), venho me apropriando também da colheita de papelões, madeiras, compensados e objetos que seriam descartados para trazer-lhes uma nova significação, na medida em que me propus a criar a partir desses recursos que encontro ao meu redor. Trata-se de um desejo constante de rever os padrões, desconstruir e reconstruir a vida e as relações interpessoais e a minha relação com o consumo, com a economia e com o desperdício mas também de observar e valorizar as formas das coisas. Tenho explorado bastante o universo das formas geométricas dentro das possibilidades de criação. Os protagonistas do meu trabalho atualmente são papéis rasgados, recortados, retirados de embalagens e às vezes reaproveitados de outros trabalhos, que são rearranjados com cola sobre papelão de modo que o formato de cada “caco” ou fragmento de papel é escolhido e observado antes de se agrupar aos demais. Junto a isso, utilizo bastante nanquim vermelho nessa espécie de amálgama. Esse trabalho está inserido totalmente dentro do meu contexto como moradora do centro da cidade de São Paulo, a partir do meu percurso constante pelas ruas, principalmente no trecho da minha casa ao ateliê – onde participo atualmente da residência artística na Funarte SP (Ateliê Coletivo Alex Vallauri) e do ateliê para casa, com o olhar direcionado a encontrar peças com alguma informação interessante à minha pesquisa (impressos, marcas, manchas, “defeitos”, memórias etc); escolho quais serão as peças recolhidas e de que maneira vou intervir sobre elas. Essas peças geralmente são madeiras, compensados, tábuas, papelões e a intervenção se faz com tinta, colagem ou outras novas formas a serem exploradas de acordo com a demanda ou resposta que o material apresentar a mim. Essa relação com o centro da cidade também me voltou mais o olhar aos moradores de rua, que utilizam papelões como abrigos e camas, fato que não posso ignorar, tamanha é esta população. Dessa forma, o papelão e sua cor parda passaram a fazer parte da minha vida. O ato de utilizar fragmentos de papéis junto com nanquim vermelho tem relação com a situação social e política atual; em outras palavras, posso dizer também que estou aproveitando o que sobrou ou está sobrando do desmoronamento e do desmonte do país…

 

A artista Neiliane Araújo

 

QUE MÚSICA VOCÊ OUVE?

Jazz, rock, samba, pop, outros. Elza Soares, Maria Bethânia, Baiana System, Blondie, Pixies, pra citar alguns, e recentemente descobri Iara Rennó, que estou gostando de ouvir.

 

QUE EXPERIÊNCIA FOI IMPORTANTE PARA QUE VOCÊ SE ENTENDESSE COMO ARTISTA?

São vários ciclos dentro da trajetória. Gostaria de citar duas experiências:

1)      Meu trabalho de conclusão do curso de Artes Plásticas na Universidade de Brasília – UnB em 2006. Eu entendi que estava realmente criando alguma coisa ali que era fruto do que eu gostava de estudar e estava propondo naquele trabalho desde já (uma instalação interativa no chão), que nos deslocássemos para enxergar novos ângulos, novas possibilidades pois, nada é fixo, nem permanente. De vez em quando, gosto de lembrar dessa obra cujo título é “A Partir” porque após este tempo que se passou, consigo enxergar a relação dela com Brasília-DF (cidade onde nasci), a minha relação com esse contexto onde ela foi produzida e qual foi a contribuição desse trabalho para que os outros nascessem nos anos seguintes. À propósito, este já era um trabalho que lidava com geometria, fragmentos…

2)      Meu projeto de intervenção artística urbana “Continue ligando os pontos da sua rede” que foi iniciado em 2017, o qual propõe construir uma obra (desenho, pintura) junto com o público em espaços públicos abertos. Começou em São Paulo e deve ser continuado em outras cidades, bairros, países. Esse projeto é uma solução que encontrei, e pretendo melhorar sua execução, para ter um diálogo mais próximo com o público, pra sentir a reação de toda e qualquer pessoa de qualquer idade, raça, gênero e crença que queira experimentar. Eu assumi com isso o compromisso de ir até onde o povo está; acho que o artista também deve ir até o público (da periferia, inclusive) e não apenas colocar o trabalho pendurado na parede de uma galeria.

 

QUE TIPO DE AJUSTE/DESENHO É POSSÍVEL ENTRE MULHERES E IGREJAS, OU ABANDONO E COMUNICAÇÃO?

Essa palavra ‘ajuste’ é uma palavra que uso bastante na vida pois, eu tento me adaptar às mudanças porém, o sucesso não é certo.

Entre mulheres e igrejas, acredito que tudo depende de uma coerência interna e tomada de posição. No meu ponto de vista, a negociação que faço em primeiro lugar é comigo mesma tomando consciência do meu corpo, demandas e desejos. A partir do momento em que eu decidi que ninguém vai dizer como devo viver em relação ao meu corpo, ao sexo e à maternidade, por exemplo, não enxerguei sentido em seguir regras de igrejas, que são instituições medievais, que tentam controlar nosso comportamento; não vejo felicidade, nem coerência nisso. Coloco essas duas ideias em eixos opostos pois, eu as vejo sempre em conflito e, levando em consideração que estamos em 2019, o meu ajuste é salvar meu útero, resistir e desenhar.

O outro par de coordenadas nasceu a partir de experiências próprias, situações que vivi em relação a falhas de comunicação, em especial. Escolhi expor essas duas ideias justamente pra pensar a forma com que nos comunicamos com o outro e se, aliás, realmente estamos nos comunicando de maneira a entender e ser entendido. O que eu penso a partir disso é que a escuta de um ser humano em relação a outro precisa ser analisada, no intuito de se praticar mais empatia e menos julgamento. Isso também é uma forma de redescoberta de si mesmo. Agora que tentei responder a essa pergunta aqui, me veio uma ideia pra um possível desenho “abandono X comunicação – II” onde eu desenharia uma situação diferente, quase oposta a que apresentei nesta exposição – como um ajuste a esse tema ou uma nova reflexão.

Acho que durante o processo de criação, o próprio ato de fazer me proporciona compreender algumas inquietações…

 

AO USAR ESTRUTURAS PREVIAMENTE ESTABELECIDAS COMO GRÁFICOS E FOLHAS MILIMETRADAS, IMAGINA UM SISTEMA DE CONTROLE QUE INEVITAVELMENTE SERÁ SABOTADO? PENSA ISSO SOBRE SISTEMAS E EXPECTATIVAS DE COMPORTAMENTO DE UM MODO GERAL?

Sim, eu imagino. Na verdade, eu já estava sabotando a rigidez do sistema quando comecei a usar esses papéis, pois eu os utilizo para uma outra função diferente daquela para a qual foram idealizados. Acho que se torna difícil falar sobre vida e subjetividade quando na prática os governos, as igrejas, os bancos estão querendo padronizar, editar as emoções e controlar o corpo e a mente das pessoas, então, eu penso sobre isso a partir desse método de desenho que criei para existir no mundo apesar e além deles; escolhi utilizar gráficos e papéis milimetrados pra pensarmos no sistema em que estamos inseridos e suas estruturas.

Acredito que expectativas de comportamentos, de maneira geral, são a causa de maior desentendimento entre partes, o que torna as relações descompensadas, ao que parece, uma vez que, a singularidade, a diversidade e o modo de operar no mundo de cada pessoa é que vai dizer qual é o movimento e o caminho.

 

Mesa de trabalho no ateliê da artista

  1. Nilciane Silva Araújo Frota

    As obras da artista nos dá uma ideia de dimensão 3 D , e o fato de usar o vermelho com o marrom do papelão revela de fato uma expressão forte ( vermelho) sobre algo comum o papelão. A Obra provoca muitos questionamentos que após ler a entrevista dar artista plástica, pude entender a profundidade das reflexões e inspirações que a levaram a construir / criar um trabalho com duas dimensões diria até várias dimensões .

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