A artista Daniela Pinheiro participa da exposição OPÇÕES DE FIM DE MUNDO.

Enviamos algumas perguntas para que possamos conhecer mais o processo e as referências da artista.

 

1 – COMO UM TRABALHO COMEÇA?
O nascimento de um trabalho pode se dar de várias maneiras, tudo depende… ultimamente meus trabalhos autorais são impulsionados por algo que vibra em mim; questões ainda não resolvidas internamente da minha própria existência, que de certo modo acho que são também indagações em comum a todos seres humanos… Acredito que o fazer artístico, durante o processo criativo proporciona compreender muito dessas inquietações… assim, para mim é entre o iniciar e o terminar que o trabalho começa; no meio, no espaço – entre, no percurso do processo de criação.

 

2 – QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?
Kenji Ota e Ricardo Basbaum. Kenji por ter ser sido ao mesmo tempo professor, orientador do meu trabalho de finalização do curso do Bacharelado em Fotografia no SENAC/SP e amigo até hoje. Com ele comecei a estudar mais a fundo e experimentar os processos artesanais de fotografia do século XIX, como o dusting on, cianótipo , papel salgado e van dayke brown. Kenji me ensinou a desacelerar durante o processo criativo e também a olhar para o imprevisto e o “erro” como linguagem e aprendizagem… lembro muito bem do processo criativo de Tasogare, trabalho que estou apresentando aqui no Arte Londrina 6, quando comecei o processo com o dusting on buscava a perfeição das imagens nos vidros, mas as primeiras imagens ficaram com as marcas de meus gestos, o que me causou um desconforto enorme, mas ao longo do processo fui descobrindo que buscava para compor a minha poética, justamente o contrário do que inicialmente havia me desestabilizado: transferir para a superfície do vidro, as marcas, um desfazer das camadas do corpo da dançarina de butô, e de certa forma, do meu também. E outro artista e pesquisador que considero importante para a minha trajetória artística é o Ricardo Basbaum. Em 2009 tive a oportunidade de trabalhar com ele dentro do Projeto Pedagógico da 7ª Bienal do MERCOSUL de Porto Alegre, no Programa de Residências Artistas em Disponibilidade. Com o Basbaum aprendi através de seu trabalho Você gostaria de participar de uma experiência artística? várias questões como: a quebra do conceito do objeto único e do suporte, a passagem da parede para o espaço arquitetônico e principalmente o contato com o participador ativando a experiência com a obra, retirando assim o espectador da posição contemplativa passiva. Acho que esse seu trabalho inconscientemente influenciou muito de minhas criações artísticas… em 2011 criei junto com a artista e psicóloga Patricia Camelatto, o coletivo de arte chamado Kinguio CasaArtStudio, dedicando-me a trabalhar com maior ênfase em arte contemporânea e poéticas visuais, assim comecei a experimentar mais intensamente o processo de desfragmentação da imagem através do vídeo cenário, vídeo mapping e principalmente com a instalação no projeto Type Stove. Foi a partir deste projeto que começaram a surgir questionamentos quanto à participação do público e que se deu o rompimento com uma forma de arte que já não se justificava mais em minhas criações. A partir dai comecei a procurar um outro tipo de expressão em que o espectador não se tornasse um sujeito passivo diante da obra e sim participativo. O trabalho Tasogare apresentado aqui no Arte Londrina 6 é atravessado por essa proposição. Em Tasogare, o público pode participar e interagir com as imagens usando lanternas que estão sobre a mesa, realizando suas próprias danças de sombras, completando, assim, as imagens dos gestos da dançarina de butô.

 

3 – O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?
Atualmente ando lendo vários livros ao mesmo tempo por conta de minha pesquisa do Mestrado em Artes Visuais na Unicamp… uma leitura meio caótica … livros que vão desde filosofia, literatura, poesias à livros de arte e fotografia. Mas existe um livro que sempre a meu ver estou lendo … acho que sempre vou estar lendo em toda a minha vida … que é o livro do Tarkovski: Esculpir o tempo.

 

4 – QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?
Ultimamente tem chamado muito a minha atenção a vida das plantas e das árvores e o movimento que o vento faz nelas. Mas muita coisa me chama atenção no mundo, as crianças e os idosos, as fases da lua, as pedras, os gatos, as constelações, o horizonte do sul, a energia espiritual, o mar, as intuições e conexões mágicas do cosmo que atravessam o meu caminho, os seres orgânicos e inorgânicos, a desaceleração e os gestos sutis do corpo, as diferenças de cada um e como compreender elas para se estar junto…. ah muito mais coisas… mas os viventes não humanos como as plantas e as árvores tem ocupado bastante meu tempo de observação, relacionamento, cuidado e troca… elas tem me ensinado o que é ser um vivente por aqui e o que significa estar e fazer parte do mundo.

 

5 – O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?
Estou envolvida com dois trabalhos, um que já citei: a instalação Type Stove, desenvolvida desde 2011, um trabalho em processo, sem data para encerrar, que se constrói a partir de um arquivo de memória vivo, escrito pelo público participante através de uma máquina de escrever. A cada intervenção do projeto é criado um dispositivo poético de subjetivação, conectando-se com o espaço estético e político que o projeto atua. Esse ano, nós do coletivo Kinguio estamos trabalhando com o dispositivo “Desenterrando as palavras”; que é uma intervenção performática com poesia, som, palavras, vídeo, que catalisam algumas vozes escritas e inscritas no pergaminho que hoje se encontra com aproximadamente 210 metros de comprimento. E outro projeto artístico que estou desenvolvendo é minha pesquisa do Mestrado em Artes Visuais, onde parto de memórias afetivas para ressignificar os registros fotográficos realizados por mim das figueiras centenárias da praia do Laranjal, na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, lugar de onde nasci. Na pesquisa escolho trabalhar com o processo alternativo de fotografia chamado cianótipo, pois esse processo me permite a possibilidade de participar em todas as etapas de criação no contato direto pelas mãos nos materiais e a percepção da mutação da imagem no tempo; explorações de reflexões através da materialidade que possibilitam levantar questões relacionadas ao tempo e a duração; assuntos que fazem parte de minha pesquisa.

 

6 – QUE SITES VOCÊ COSTUMA VER?
Costumo ver vários, mas acho que sempre parto de quatro sites que me levam a todos os outros que visualizo: Google, Facebook, Instagram e Youtube. Além desses, entro de vez em quando no meu site pessoal danielapinheiro.com para inserir os trabalhos novos produzidos ou para olhar e ver o que posso melhorar no layout, nos textos e nas imagens….

 

7 – QUE MÚSICAS VOCÊ OUVE?
Depende do momento, gosto muito de música e degoo sentir o efeito que o som causa no corpo e na alma … acho que já ouvi durante o dia, bem mais músicas do que ouço ultimamente. Muitas vezes tenho preferido estar mais no silêncio. Mas gosto de ouvir Mantras tibetanos e indianos, Tim Maia, Vinicius de Morais, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Bob Marley, UB40, Miles Davis, Cat Stevens, The Beatles, Mercedes Sosa, Astor Piazzolla, Bach, fados portugueses como Madredeus e Amália Rodrigues. Nesses últimos meses tenho escutado três tipos de sons indicados por amigos: Baiana System, Xavier Rudd e Sharon Jones.

 

8 – QUE EXPERIÊNCIAS COM ARTE FORAM IMPORTANTES PARA VOCÊ?
Várias experiências artísticas foram importantes para mim; acho que uma vez colocando o seu corpo na experiência, você sempre aprende algo com isso, mesmo que o trabalho não saia do jeito que você pensou ou desejou. Em um primeiro momento, acredito ter sido com a minha primeira exposição individual fotográfica sobre os Trabalhadores do Mercado Público de Pelotas/RS. O que mais me emocionei foi no dia da abertura, quando olhei para a porta e um dos trabalhadores entrou na exposição com toda a família, lembro bem do momento… uma tia minha sussurrou para ele, parabéns e ele todo emocionado foi ver sua imagem na fotografia… isso para mim compensou todo o processo de trabalho e a exposição. Em um segundo momento, o programa de arte televisivo que criei e dirigi, durante três anos despertou minha atenção para aprofundar mais no universo da arte, com ele pude conhecer o ateliê de vários artistas e trocar várias experiências. Também criar e dirigir o documentário Inventovoceinventa sobre a circulação do objeto NBP – Novas Bases para Personalidade de autoria de Ricardo Basbaum foi uma experiência importante para mim, enquanto artista. Trabalhar com uma equipe de mais de 10 pessoas foi uma aprendizagem de convivência para entender as diferenças do outro. Com a minha entrada no Bacharelado em Fotografia pude me aprofundar mais nas questões em relação a imagem fotográfica e também compartilhar idéias sobre esse universo com outros colegas. A residência artística da Nuvem que realizei, no Rio de Janeiro com duas artistas, Patricia Camelatto e Mariana Farcetta e o seus desdobramentos, me trouxe a vontade de trabalhar cada vez mais no coletivo, pois cada um potencializa um ao outro. O projeto com a Type Stove sempre é uma aprendizagem, pois é um projeto que está em continuo desenvolvimento e transformação há sete anos. O processo com o trabalho Tasogare foi uma experiência e tanto que já contei um pouco em alguma resposta aqui em cima. E por fim a minha experiência no Mestrado em Artes Visuais que ainda está sendo muito importante por todas trocas, aprendizagens, experimentações e ampliações para o meu discurso, caminho e poética.

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