O artista Guilherme Moreira participa da exposição DAS ESTRUTURAS MÍNIMAS ÀS NÃO CORES.

Enviamos algumas perguntas para que possamos conhecer mais  o processo e as referências do artista.

1 – COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Geralmente começa com uma pequena obsessão. De repente me deparo com uma imagem de um filme ou um livro, uma palavra ou frase de algum texto, e isso tende a ecoar no meu pensamento durante dias, até meses, e de um jeito ou de outro, caso valha a pena no momento, o conceito se desenvolve e toma forma. Os primeiros trabalhos foram os mais difíceis justamente pelo fato de que eu parecia estar partindo do zero, o que nunca é verdade, mas o que se seguiu – e ainda se segue –  das primeiras experiências constituem-se num constante dissecar as entranhas do pensamento inicial.

 

2 – QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Desde a graduação venho pesquisando a respeito dos minimalistas, como Don Judd e Dan Flavin, sempre tentando entender o porquê de formas tão “áridas” exercerem tamanho desconcerto em minhas ideias a respeito da arte. Gosto de pensar em séries e em números como Lewitt o fez, gosto de pensar na matéria plástica e suas possibilidades como Hesse o fez, e gosto de pensar em espaço, arquitetura e percepção como Clark e Oiticica o fizeram. Não posso deixar de mencionar minha grande admiração pelas formas elegantes de Lescher, nem meu profundo respeito pelas linhas e papéis de Edith Derdyk. Minha formação em teoria e história da arte não deve ser ignorada de modo algum, e Diante do Tempo, de Didi-Huberman, tem me mostrado, a cada nova leitura, a beleza da imperfeição que jaz na complexidade das dobras do tempo.

 

3 – O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Pensar a Imagem, organizado por Emannuel Alloa e publicado pela Autêntica, tem ocupado meu tempo nos últimos meses, e posso dizer que tornou-se um verdadeiro tesouro nas minhas leituras em teoria e história da arte. Aprecio bastante monografias de artistas, e estou imerso na leitura de Pérola Imperfeita: a história e as histórias na obra de Adriana Varejão, escrito à quatro mãos pela artista e por Lilia Schwarcz. Fora da literatura sobre arte, mas não tão distante, empreendi uma leitura ávida de Marcel Proust simultânea à de Virginia Woolf, e tenho descoberto novos universos em lugares que vejo/transito/habito diariamente: o que me leva à próxima questão …

 

4 – QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Excepcionalmente aquelas pequenas coisas que se repetem nos lugares mais inesperados e aquelas inesperadas que emergem nos lugares mais corriqueiros. 

 

5 – O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Além dos desdobramentos dos trabalhos em escultura e instalação com madeira e papel, recentemente tenho me dedicado um pouco mais à pintura, uma linguagem que ainda permanece distante de mim. Jamais numa tentativa de dominar esta ou aquela técnica, mas numa aproximação amigável na qual juntos, eu e a pintura, possamos descobrir mais um do outro. A imagem acima faz parte de uma das séries que estou iniciando, tem algo a ver com cor, especificamente com a minha cor.

 

6 – QUE SITES VOCÊ COSTUMA VER?

Mapa das artes | programação de cinema | livrarias | Netflix | redes sociais

 

7 – QUE MÚSICAS VOCÊ OUVE?

Qualquer música na voz de Lauryn Hill eleva meu espírito, especialmente as de Miseducation. Quando estou no ateliê gosto de ouvir e cantar junto a Ella Fitzgerald, alternando com Adele e, mais recentemente, a recomposição das Quatro Estações de Vivaldi, por Max Richter, tem sido uma boa companheira nos momentos de ócio e de maior produção. Algo na voz de Nelson Gonçalves me enche de nostalgia e melancolia e, ao mesmo tempo, me dá esperança, talvez por isso costumo deixar algumas músicas em looping. Mas tem dia que esqueço toda essa história e só escuto Justin Bieber ou Katy Perry, e me sinto muito bem.

 

8 – QUE EXPERIÊNCIAS COM ARTE FORAM IMPORTANTES PARA VOCÊ?

Minha primeira aula na graduação em Teoria, Crítica e História da Arte, com a professora Vera Pugliese, desde então minha grande mentora. Lembro ter sofrido uma severa crise de ansiedade, uma espécie de princípio de síndrome de Stendhal, ou algo assim. Havia apostado todas as minhas fichas nessa “nova” graduação que ali surgia, e aquela aula me mostrou o tamanho da minha ignorância e da minha pretenção: imagina, dar conta de mais de 70.000 anos de história da arte em 4 anos. Voltei para casa desmantelado com o baque e triste por ter largado tudo por algo que parecia, naquele momento, uma frivolidade. No dia seguinte a ansiedade e a tristeza haviam dado lugar à vontade de encarar o desafio, e o resto é história.

 

 

 

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>