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O artista Leandro Muniz participa da exposição ARTE LONDRINA 4 – SOBRE O QUE PODE SER FAMILIAR. Enviamos algumas perguntas para que possamos conhecer mais sobre o processo e as referências do artista.

 

1 – COMO UM TRABALHO COMEÇA?

Estava lendo alguns textos sobre a Rivane Neuenschwander e uma palavra que os críticos citam em relação ao trabalho dela é serendipity, que é uma espécie de descoberta por acaso. Achei legal. Eu tento ter rigor com o trabalho: ler todo dia, ver arte sempre, conversar com outros artistas, mas acho que as coisas só viram um trabalho quando tem uma dose de surpresa e a imaginação funciona junto com esse processo mais racional.

 

2 – QUE ARTISTAS OU TEÓRICOS VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES? POR QUÊ?

Tem muitos, mas um dado que tenho percebido é que gosto de artistas ou teóricos que embaralham as coisas, que fazem a gente desconfiar ao mesmo tempo em que trazem a tona as características dos materiais com que estão lidando. O trabalho da Rivane mesmo. O Machado de Assis,  Drummond também gosto bastante. A Sônia Salzstein é uma professora importante pra mim, alguns textos sobre arte contemporânea, principalmente. Cinema vejo pouco, mas sempre vejo Almodóvar.

 

3 – O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

Um catálogo sobre o Anthony McCall, tem alguns textos dele e é cheio de desenhos para as “esculturas”. Mas o último texto que li que me ajudou (e desconcertou) muito foi um do Merleau Ponty, chama As vozes indiretas e a linguagem do silêncio. Ele pensa pintura como linguagem ali, e no final acho que podemos estender isso pra outras coisas, comida, roupa, talvez a natureza. Tudo é linguagem.

 

4 – QUE TIPO DE COISA CHAMA SUA ATENÇÃO NO MUNDO?

Todo mundo tem muitos interesses, né? Mas tendo a gostar desses momentos em que existe algum desvio no funcionamento normal das coisas. Sabe quando você está distraído e percebe alguém ou um modo de resolver alguma coisa… As convenções e as consequências delas me interessam, mas num sentido mais disperso, fragmentário. Não gosto muito de panoramas.

 

5 – O QUE VOCÊ ESTÁ PRODUZINDO AGORA?

Comecei a expor o ano passado e isso gera trocas que mudam o rumo do trabalho. Estou tentando produzir de um jeito mais sintético agora. São alguns trabalhos em que a forma e o material tem relações parecidas. O último foi A onda que é uma telha de brasilite na qual eu pintei uma superfície com um azul bem brilhante, mas bem opaco. O próximo talvez seja o Long way: pintar aquelas faixas de trânsito amarelas num rolo de carpete cinza.

 

6 – QUE SITES VOCÊ COSTUMA VER?

A internet é bem dispersiva, acho que a gente vê muita coisa e muita coisa sem importância. Em relação à arte, gosto de ver as falas de artistas que existem no site da Tate e de outros museus. As da pintora Julie Mehretu foram importantes pra pensar tanto a prática de pintura, que no caso dela é muito baseada em pesquisas sobre história e os usos sociais das imagens que ela usa, quanto certos lugares de onde se fala.

 

7 – QUE MÚSICAS VOCÊ OUVE?

Exatamente agora estou ouvindo Miss Kittin, aquela DJ. Ouço várias coisas que são  puramente divertidas, muito pop… Mas muita música brasileira, em que as letras têm um misto de devaneio e reflexão. A ideia pro Long way veio da música do Caetano.

8 – QUE EXPERIÊNCIA COM ARTE FOI IMPORTANTE PARA VOCÊ?

Literatura na adolescência, por mais que fosse um processo de pura identificação, sem análises fortes foi um momento de perceber o potencial da forma, a densidade que o modo de se dizer as coisas pode ter. Li bastante da Clarice, como muita gente da minha geração, e gostava de como o modo de escrever reunia problemas sociais e outros mais subjetivos com uma reflexão sobre a própria escrita ou sobre a arte. E Mira Schendel quando comecei a estudar, numa exposição do MAM do Rio. O trabalho era quase nada naquela arquitetura meio fora da escala humana. Era um zero de letraset num papel arroz, só. Isso desencadeou muitas dúvidas sobre arte, sobre os modos de circulação de arte e sobre ser artista. Não era sobre uma capacidade técnica, expressiva. Era mais sobre uma articulação de linguagem, uma atenção para as relações entre as coisas.

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